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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Em cima da minha mesa...

Em cima da minha mesa

Da minha mesa de estudo

Mesa da minha tristeza

Onde noite e dia....

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Começava assim o poema de José Régio, que eu deveria   declamar numa festa onde todos os estabelecimentos de ensino da cidade participariam.

Lá estariam as pessoas mais importantes : o bispo, o governador civil, o presidente da câmara e tantos tantos mais que nem me importei em saber.

O que me preocupava era desempenhar bem o meu papel e não deixar mal visto o nosso colégio.

Cantar, dançar, pintar, representar era o que melhor me podiam mandar fazer; esquecessem a matemática, a geografia, as ciências...eu queria era arte, drama, encenação, palco...

Durante semanas a fio a paciente irmã Sameiro fez-me repetir centenas de vezes o bendito poema, que volvidos tantos anos não esqueci.

...e lá recomeçava pela centésima vez:

...Em cima da minha menza...

- Não é menza, é mesa- gritava ela

...rasgo folhas...

- a tua voz, a tua boca, a tua entoação tem que dar a ideia de rasgar...mais vida, sente o que estás a dizer.

...e me estudo, eu já me estudo...

- Vá agora a expressão é outra, é como se  estivesses a dar uma novidade.

 Não fosse o meu gosto pela representação, teria desistido. Tantas brincadeiras perdidas, enfiada numa sala com aquela mulher possante á minha frente a gritar  vezes sem conta..."mesa" e eu a dizer outras tantas "menza"

Chegou o grande dia.

 Blusa branca, saia preta, cabelo comprido caído bem penteado, soquete e sapato a condizer...tudo parecia perfeito.

 Lentamente  subi as escadas do palco. As pernas tremiam, mas o pior foi o lábio inferior que parecia uma castanhola que eu tentei  parar com uma forte mordidela ...quanto mais mordia mais ele batia; por momentos julguei que o trabalho de semanas tinha sido em vão. O  micro estava demasiado alto para os meus minúsculos doze anos; enquanto o colocavam á minha altura, deu tempo para continuar a controlar  o meu tremor labial.

 Soltei as palavras... como por milagre o lábio parou de tremer. Não vi ninguém, não olhei para nada, os olhos perderam-se no infinito  vazios de imagens e cheios de emoção. Ecoaram palmas, senti que todos se levantavam...aplaudiam de pé...tinha conseguido!

 A última frase do poema permanecerá em mim até ao dia em que eu sentir que a poderei oferecer á única pessoa que a poderá dizer com o mesmo amor com que eu a disse há muitos anos atrás.

"Em cima da minha mesa tenho o teu retrato ...Mãe!"

                                       

 

 

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