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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

A Escrava

No centro da praça, algures no Oriente, ... ela ali estava. Rosto coberto...imóvel...como se de uma estátua se tratasse. Olhos parados, fixos num ponto indefinido, alheios a tudo; nos lábios nem um sinal de tristeza que uma ou outra ruga de expressão podesse denunciar. Ninguém via, ninguém queria saber...o véu negro cobria-lhe o rosto que embora com vida, há muito tinha morrido.

 Atrás dela uma idosa olhava em redor e ia recebendo as ofertas mais altas dos muitos homens que se encontravam interessados  na compra daquela jovem. Dizia-se, que casa para onde fosse seria afortunada. As mulheres daquela tribo tinham poderes especiais.

Sorte não teria ela , sabia que teria de servir toda a vida.

O preço que a velha senhora pedia era demasiado elevado, arranjar comprador não parecia tarefa fácil.

Viu o seu destino mudar quando do meio da praça surge um homem com porte distinto, altivo, seguro de si que com passada lenta se aproximou... fez a melhor oferta. Era português veio a saber depois. Sempre de rosto coberto,  serviu-o a vida toda.

 

Muitas vidas se passaram.

Escolheu nascer num outro local onde foi amada e acarinhada pela família, mas a recordação de anos vividos em cativeiro , provocou-lhe um desejo forte de sair dali... não queria prisões.

Ao longo do caminho foi escolhendo outras paragens, esperando sempre que uma deles fosse a última.

Houve alturas em que  se sentiu tão bem que o rosto outrora sem expressão, tomava um ar radioso, os olhos brilhavam e um sorriso estampava-se-lhe no rosto denunciando uma alegria que rapidamente se revelava efémera.

E partia...

Enquanto descansava  no intervalo de uma das suas curtas paragens, ele apareceu...olhos verdes, cabelo alourado, olhar meigo, sorriso franco e acolhedor...

O coração dela por momentos deixou de bater, susteve a respiração. o estômago apertou-se-lhe, como sempre acontecia em momentos em que sentia que algo de muito importante iria acontecer.

Pouco tempo passado estava casada com o mesmo português que a tinha comprado algures numa praça do Oriente.

Voltou á prisão! Tinha-se tornado de novo uma escrava.

Ensaiou várias fugas, todas elas em vão.

Um dia, reunindo não sabendo como, todas as forças que lhe restavam, fugiu.

Hoje, recolhida no seu canto, vive prisioneira de si mesma.

 

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