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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Danças?

-Danças?

Olhou-o surpreendida, não estava á espera de um convite tão rápido.

O baile tinha começado há pouco. Ficaram admiradas por ter sido ela a primeira a ser convidada, não era a mais bonita, nem a mais bem vestida...tinha  sim qualquer coisa especial, inexplicável, uma energia e um sorriso que marcavam a diferença.

O salão de festas estava apinhado.

Rapazes e raparigas olhavam -se  veladamente, disfarçando a timidez, ganhando fôlego para convidar a miúda que mais os cativava.

Ele era alto, magro, olhos pretos, um bigode que lhe dava um ar mais velho, respeitável. maduro, muito diferente dos outros com figuras mais acriançadas.

-Que sorte tiveste...tão giro!- diziam as amigas com uma pontinha de inveja.

Sorriu, encolheu os ombros e não deu importância.

Com tanta rapariga bonita no salão, não esperava que ele a convidasse de novo. Enganou-se, voltaram a dançar, uma e outra e outra vez.

Tinha de regressar, marcaram-lhe hora para chegar a casa. Já sabiam os nomes um do outro e na despedida ele perguntou:

- Posso ir buscar-te quarta feira à escola?

Os dias passaram lentos, mais do que  era costume...

- Será que ele aparece?- pensava... duvidando.

Passearam pelas ruas da cidade. entraram numa pastelaria e lancharam... a conversa continuou. De início banalidades , ambos á procura de um ponto em comum...de algo que pudesse dar continuidade áquele encontro.

E todas as quartas feiras ali estava ele, ali estava ela, sem definirem trajectos, sem programarem nada.

Ele mais velho , falava de assuntos que ela não dominava, ouvia-o atenta, fixava o nome de autores que citava. Corria para a biblioteca e depressa devorou Nietzsche, Sartre, Bertrand Russel...e tantos, tantos outros.

Nas ruas da cidade, no banco do jardim, na mesa do café,  olhares mais atentos, poderiam descobrir dois jovens , que discutiam e comparavam acerrimamente, ideias, comportamentos, tendências...alheios a tudo, apenas embrenhados em temas que os uniam, que os mantinham presos e que lhes garantiam o próximo encontro de quarta feira. 

Pouco sabiam um do outro, era um pormenor sem importância.

Muitos encontros aconteceram, á mesma hora, no mesmo dia, em diferentes locais.

Passaram meses...ela foi de férias, quando regressou, os encontros  continuaram .

Aproximava-se o final do ano, daí a pouco tempo tinha de regressar, nunca lhe tinha passado pela cabeça  que um dia se teriam de  despedir...mal ela imaginava que isso nunca iria acontecer.

Naquela quarta feira no sítio do costume esperou por ele. Costumavam ser sempre pontuais. Passaram quinze minutos...vinte...meia hora...nada... olhou para outras esquinas, espreitou nas ruas vizinhas, inventou desculpas para o atraso, talvez tivesse perdido o autocarro...ou estaria doente? Sem um contacto, sem uma morada, sem nada onde pudesse agarrar-se para minimizar a angústia da espera, ali continuou...não soube por quanto tempo.

Naquele dia regressou a casa cabisbaixa, triste, amargurada, pior que a despedida era não saber o porquê da ausência, nunca o chegou a saber. 

Só muito tempo depois percebeu que ele nunca partiu. Passou a ser óptima aluna a Psicologia e Filosofia. De cada vez que expunha as suas ideias , que escrevia sobre sentimentos, emoções e comportamentos lembrava as quartas feiras de um ano qualquer e da despedida que nunca aconteceu, porque compreendia agora que nem sempre o " Adeus" era necessário, sobretudo para quem nunca tinha partido.

 

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