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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

África Minha/ A Primeira Noite

 

 

Há a noite em que pela primeira vez adormecemos ao lado de alguém, outra em estendemos o braço e sentimos a ausência de quem partiu, a noite em que pela primeira vez embalámos um filho, ou ainda aquela em dançámos até amanhecer e há...a minha primeira noite em África.

 

Cheguei aqui a 3 de Novembro. Fui invadida por sensações novas... o cheiro, o calor húmido, o trinado de aves que nunca tinha escutado, a noite que apareceu de repente, a escuridão que não deixava descobrir o que ladeava o caminho ao longo de uma estrada iluminada apenas pelos faróis do jipe que nos levou até ao nosso destino.

Envolto em espesso arvoredo, de arquitectura colonial, surgiu  o hotel onde iria passar a primeira noite em África. Apesar de já ter visitado Cabo Verde e Marrocos, senti que esta viagem iria ser diferente, iria conhecer um continente que conhecia apenas dos bancos da escola primária...palavras como : savana, selva, animais selvagens...iriam deixar de fazer parte do meu imaginário e tornar-se realidade.

Cada quarto era uma cabana de telhados de colmo, pareciam  casinhas de bonecas cuidadosamente alinhadas ao longo de um corredor empedrado, enfeitado de flores e de bananeiras donde pendiam cachos amarelos de frutos já maduros. Em frente, crescia imponente uma enorme árvore de tronco recortado e de folhagem frondosa, que amenizava com a sua sombra o calor abrasador que se fazia sentir em tardes ardentes... era  acolhedor o meu quarto... camas protegidas com rede mosquiteira,  impediam que fosse atacada por insectos, embora saiba que nem mesmo esses bichinhos querem nada comigo e ao longo da viagem, apesar de ter sido avisada e aconselhada a barrar-me com repelente, nunca nenhum se atreveu a atacar-me.

Estava estoirada, depressa adormeci. Acordei já o sol ia alto...pensava que era tardíssimo. Olhei para a cama do lado e vi que ainda dormia.

Levantei-me pé ante pé, vesti um roupão branco, peguei na máquina fotográfica e bem devagar abri a porta.

Respirei profundamento aquele ar diferente, não queria desperdiçar aquele momento, apurei todos os sentidos. Passei suavemente as mãos pelo tronco das árvores , debrucei-me sobre plantas e flores que nunca tinha visto.

O chilrear das aves era ensurdecedor, sem ser incómodo. Registei tudo o que não queria perder e o clique da máquina era o único som que destoava no ambiente que me rodeava.

Que estranho terá parecido a dois funcionários que passaram, ver a minha figura a nadar dentro de um roupão enorme, vagueando por ali áquela hora da manhã... nem sabia que horas eram, fiz questão de não levar relógio.

A certa altura comecei a achar estranho não ouvir qualquer sinal de acordar dos meus vizinhos. O silêncio continuava. Resolvi entrar no quarto...muito devagar...apesar de todo o cuidado, não pude evitar tropeçar numa mala, logo á entrada.

-Que andas a fazer?

-Fui á rua, já deve ser tarde, não te levantas?

-Sabes que horas são?

-Não faço ideia, mas deve ser tardíssimo.

-Disparate, não sabes que aqui amanhece cedo? São seis e meia. Dorme...

Eu não sabia, claro que não, era a primeira noite na Tanzânia.

Deitei-me novamente e esperei ansiosa pelo despertar de quem dormia, de todos os que nem sonhavam que estavam a perder o espectáculo fantástico daquele amanhecer em África.

 

Ps: Quem quiser pode ir vendo em http://existeumolhar.blogs.sapo.pt/  fotos que vou colocando sobre esta viagem.

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