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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Presentes inventados

 

a Maria do Rosário era uma menina  de aspecto franzino, muito alegre e de sorriso fácil.

Nasceu  numa pequena aldeia e cresceu com os seus três irmãos. Com eles partilhava brincadeiras e deveres próprios de criança.

O Natal era vivido de forma bem diferente da que hoje conhecemos. Filha de gente humilde, não sabia o que era uma árvore de natal enfeitada de bolas e fitas coloridas, nem esperava que houvesse alguém , que sorrateiramente e pela calada da noite, viesse trazer presentes, que abririam na manhã seguinte.

Ela e os irmãos iam ao musgo e enlameavam-se todos numa saibreira, trazendo algum barro, para modelarem as figuras que grotescamente iam surgindo das mãozitas pequeninas de quatro crianças , que empenhadas, faziam nascer o Menino Jesus, o burro , a vaca e todas as outras figuras que viam representadas nos livros. Pouco se importavam que passado um dia ou dois o barro rachasse e tivessem de construir tudo de novo. Competiam entre si para ver quem fazia o animal ou o pastor mais bonito. Todos os dias se encarregavam de colocar pastores e ovelhas , mais perto do estábulo e diziam uns para os outros: "- Estão quase a chegar...temos que fazer o Menino Jesus!"  Os reis magos só seriam feitos depois. Tinham um orgulho enorme no seu presépio.

Ouviam a mãe ralhar quando lhe apareciam mascarados de barro... nariz, mãos e a roupa...ai a roupa que dava tanto trabalho a lavar e  demorava tempo infinito a secar naqueles dias invernosos de Dezembro.

Assim se entretinham as quatro crianças nos dias que antecediam a noite de Natal.

Ansiosos esperavam que a mãe e a avó pegassem no grande alguidar de barro vidrado e despejassem nele a farinha e o fermento para começarem a amassar as filhós.

Maria do Rosário, aninhava-se e a medo pedia para ajudar, adorava mergulhar as mãos naquele monte de massa mole e escorregadia. Esperava ansiosa o momento de serem feitas  na enorme frigideira de ferro, porque sabia que lhe era destinada a doce missão de envolver cada filhós em açúcar e canela. E que bem sabia, de vez em quando, e sem que a mãe visse, lamber os deditos...

A noite de Natal chegava, uma noite como todas as outras , não fosse a missa do galo na igreja da aldeia que ficava a dois quilómetros de sua casa.

Todos bem agasalhados lá iam contentes , encontrando-se com uns e com outros estrada fora e aguardando o momento  mais desejado...aquele em que, em fila, iriam beijar o Menino Jesus. Enternecidos, verdadeiramente comovidos e com toda a solenidade que o momento exigia, era com emoção e muita cerimónia que beijavam a perna do Menino que lhes era oferecida pelo senhor prior, que após cada beijo o limpava com um paninho debruado a renda finíssima.

Regressavam a casa onde a lareira os esperava e onde um delicioso prato cheiinho de filhós os aguardava acompanhado com um chá de cidreira bem quentinho  feito pela avó Maria.

Destes momentos Maria do Rosário guarda uma enorme saudade.

Os anos passaram, fez-se professora e prometeu que nunca iria perguntar aos seus alunos o que tinham recebido, porque se lembrava daquela vez em que teve de inventar um rol de presentes quando a sua primeira professora, pediu a todos que dissessem o que tinham recebido nesse Natal.

 

 

 

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