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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Desabafo de uma professora

 

Deixo um desabafo, a propósito dos últimos acontecimentos  dos quais tanto se tem falado e escrito... Bullying e suicídio de um professor.

Daqui a pouco tempo, talvez tudo tenha caído no esquecimento. Outras notícias de catástrofes apagarão o que hoje se vive. Á nossa volta tudo gira tão rápido, que depressa se deitam para trás acontecimentos que nos marcam, que nos deixam abismados e a pensar que as nossas prioridades mudam de uma hora para a outra, mas os problemas, esses , ficam lá, esperando que alguém os resolva, ou que se esqueçam de uma vez por todas assuntos que incomodam.

 

Lembro-me como se fosse hoje do primeiro tabefe que dei a uma aluna minha. Era o meu primeiro ano de trabalho. Tive tanto azar (e ela também), que a menina ficou a sangrar pelo nariz, eu quase desmaiei. Vim a saber que era muito sensível e que facilmente isso acontecia. Fiquei mais traumatizada que a minha aluna. Hoje é uma das minhas melhores amigas e fui eu que um dia, já crescida, lhe relembrei o que se passou. Ela esqueceu e não foi por isso que não deixou de fazer ou ter uma vida normal, com sucesso e sem traumas. Prometi a mim própria nunca mais tocar numa criança, optei por outras formas de castigo que se revelaram, mais eficazes, de forma a que nem professora nem alunos ficassem traumatizados,  explicando-lhes a razão das minhas atitudes, que quando entendidas eram aceites.

Hoje confesso que com o actual estado de coisas e palavras como  assertividade,  compreensão,  carinho, ou o recurso aos melhores manuais de psicologia ou pedagogia, não serão suficientes para  acabar com o caos que se instalou.

 

Que fazer quando um menino de 7 anos, recusa apanhar as cascas de laranja que deitou para o chão e diz á funcionária que o chamou á atenção , para as apanhar ela, que é para isso que é paga?!

Que fazer ao menino de 6 anos que bate na professora e a seguir salta pela janela?

 

Em surdina, muitos professores se vão queixando da desautorização de que foram alvo nos últimos anos.

Em surdina se lamentam do desgaste a que estão sujeitos quando a todo o momento são vítimas da insubmissão, falta de respeito, agressões verbais e por vezes físicas a que estão sujeitos.

Em surdina comentam com tristeza a atitude de certos pais que assistem indiferentes ao mau comportamento dos filhos e que continuam a ficar aliviados quando têm no tempo que eles passam na escola, uma altura em que estão descansados e não os têm de aturar.

Em surdina, interrogam-se como será a sociedade daqui a uns anos?

Em surdina fazem os piores prognósticos sobre o futuro das gerações vindouras.

Em surdina lamentam o dia em que resolveram ser professores, depois de terem de participar em tantas  reuniões, formações, burocracia que se vêem obrigados a cumprir, roubando-lhes tempo e energia para fazer aquilo que mais gostam... Ensinar.

Em surdina falam da acusação que têm sofrido, quando há bem poucos anos começou por aí a ouvir-se que trabalham poucas horas.

 

Assiste-se a um progressivo aumento da banalização da formação e educação das crianças.

Valores e ética são assuntos que estão definitivamente a desaparecer da nossa sociedade.

A permissividade a tolerância, a indiferença, são hoje uma constante á qual não há ninguém que tenha coragem de pôr termo.

Será preciso arrojo e audácia por parte dos governantes para colocar um fim no actual estado de coisas e enquanto ela falta, vai-se tapando o sol com a peneira, pedindo relatórios, enviando-se apoio psicológico e tentando descobrir os culpados. 

Sei que há pais preocupados e que se fazem presentes na educação e formação dos seus filhos, outros há que ainda acham que á escola compete educar e formar.

Sei que há e sempre haverá professores incompetentes assim como há médicos, advogados, pedreiros, polícias, ou outros profissionais.

Sei que não é fácil encontrar o equilíbrio. Sei que é difícil legislar.

Não sou adepta do retorno á reguada ou orelhas de burro em frente á janela, não sou adepta da violência, da humilhação, ou outra prática que não seja pautada pela respeito por todos os indivíduos.

Reconheço que se por acaso alguém permitisse o regresso dos castigos físicos, cair-se -iam em exageros; definitivamente penso que a solução não passará por aí, violência gera violência.

E pergunto:

-Que soluções?

-Que estratégias?

-Vamos continuar a permitir que morram inocentes e esquecer todos estes dramas?

 

Quando Isabel Alçada deixar o Ministério da Educação, terá assunto para mais uns quantos volumes da sua colecção " Uma Aventura".

 

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