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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Peregrinos contrariados

                                                   

 

A propósito da reportagem do pagador de promessas e do que li aqui voltei á minha infância.

Vivi até aos nove anos numa aldeia que ficava a treze quilómetros de Fátima.

De tempos a tempos a minha avó e a minha mãe lembravam-se de pegar em mim e nos meus irmãos e decidiam ir a Fátima a pé, com o pretexto de terem de cumprir uma promessa.

Contrariados lá íamos. Não percebia porque é que elas prometiam e tinham que nos levar a nós.

Escusado será dizer que durante a viagem aconteciam muitas peripécias. Cansados, esfalfados, usávamos todas as artimanhas para parar o máximo de vezes no caminho. Umas vezes era a fome, outras a sede e outras os xixis. Entre resmunguices, lamentos e por vezes um estalo por faltar a paciência, lá íamos, impacientes, mas conformados.

A família toda recorda a exclamação do C. na altura com quatro anos , quando avistou a torre do santuário e disse"- Ai mãe, mãe, a Fátima é tão grande!" Pobre criança! De vez em quando a minha mãe pegava nele ao colo, eu até tinha pena dela, ele não era propriamente uma criança franzina.

Chegados ao santuário havia ainda o terço e a missa. Ajoelhados, de mãos postas, quais três pastorinhos, penso que rezávamos para que aquilo terminasse depressa.

Não me lembro quantas vezes isto se repetiu, mas lembro-me de um dia ter ganho coragem e dizer "basta". Era a mais velha e a mais refilona, disse que se quisessem prometer alguma coisa que o fizessem sem nós. Os meus irmãos de olhos arregalados esperavam um mau desfecho pela minha ousadia, mas resultou, as peregrinações acabaram.

Não entendo porque tive de viver isto, ou melhor talvez tivesse sido para perceber os exageros da fé e arranjar um ponto de equilíbrio em que fanatismo e ateísmo ficassem nos extremos e nunca nenhum deles, pudesse algum dia fazer parte das minhas práticas.

De vez em quando vou a Fátima, não vou rezar, não vou cumprir nenhuma promessa, apenas quero "estar", sem pensar, tentando apenas entender o que ando por aqui a fazer e qual a minha missão neste mundo.

E num último gesto acendo uma vela, tal como faço todos os dias em minha casa, com esperança que a luz se faça quando não consigo descobrir o que está para além de mim.

 

 

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