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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Crescer a trabalhar

Pensava eu que ia escrever sobre um assunto que já tinha em rascunho, mas de repente ao ler o post do Jorge lembrei-me também eu, da minha infância e do quanto trabalhei.

Era a mais velha de quatro irmãos e a única rapariga, o que á partida era uma desvantagem porque tudo me caía em cima, até á altura em que eles puderam começar a fazer alguma coisa. Não tive de ir trabalhar para ganhar dinheiro, mas para que os meus pais o pudessem fazer, tinha de lavar as fraldas do mais novo, naquela altura não haviam as descartáveis, nem máquinas, casa arrumada e varrida, de aspirador nem se falava e o pó, que eu detestava limpar, era o meu calcanhar de aquiles e como a mãe sabia disso, tinha inspecção minuciosa e voltava a fazer de novo, sempre a resmungar, como era meu hábito.

Com algum sacríficio e pensando eles que era para meu bem, tive de ir para um colégio de freiras onde fiquei interna até ao 5º ano(9º de hoje).

E se pensam que me livrei do trabalho, estão enganados, acho que duplicou.

Todas tinham tarefas, excepto as meninas mais ricas que pagavam mensalidades mais altas.

Levantar ás sete e meia da manhã, missa, arrumar o dormitório, lavar casas de banho e a seguir o pequeno almoço.

Parte do dia era passado em aulas, horas de estudo, algum recreio, quando não estava de castigo por causa da refilice, mas a louça das refeições era lavada por nós e já no final da tarde um grupo era colocado em frente a uma ou duas sacas de batatas que tinha que ser descascadas para que no dia seguinte fossem cozinhadas. Claro que o olhar atento das freiras não deixava escapar o truque da casca grossa, para a saca despejar mais rápido. O bom disto tudo eram as histórias que se iam contando, e as anedotas de algumas bem humoradas, mas se havia asneira um dos castigos era o silêncio e tudo tinha de entrar mudo e sair calado.

Durante muito tempo pensei que esta rigidez, esta forma de ter de trabalhar e estudar, não era justa, vendo eu que muita gente tinha o previlégio de não fazer nada.

Os anos foram passando e concluo que o que então me causava uma certa revolta, fez com que ao longo da minha vida, me tenha apercebido que cresci da melhor forma, que aprendi muito antes do tempo que era normal, a desenvencilhar-me, a ser independente, autónoma e a saber resolver de forma rápida qualquer imprevisto.

Vivi o que tinha de viver, mas confesso que fui uma mãe que não fez ao filho metade do que me obrigaram a fazer. Penso que lhe forneci as ferramentas necessárias para que pudesse saber um dia usá-las quando necessitasse.

Não sou apologista do trabalho árduo e penoso para as nossas crianças, mas também me constrange ver que há adolescentes cujos pais, de tão preocupados que estão em proporcionarem uma vida melhor do que a que eles tiveram, não deixam que os meninos aprendam o mínimo para que um dia possam pelo menos tomar conta deles próprios. Felizmente há excepções e conheço muitas, acima de tudo há que saber encontrar o caminho do equilíbrio para que um dia  possam encarar sem medos as primeiras dificuldades da vida. 

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