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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Memórias

   Foto do meu blog " Existe um Olhar"

Naquele dia a leoa sentiu que estava na hora de deixar aquele canto da savana onde sonolenta costumava passar as tardes escaldantes. Há muito que uma certa letargia se tinha apoderado dela por sentir que nada de novo se passava para além do que o seu olhar conseguia alcançar.  Sem saber bem porquê sentiu um impulso que a levou a deambular por ali. Surpreendidos os outros animais que a viam passar olharam-na desconfiados, tentando perscrutar através do olhar qual o motivo que a tinha levado a finalmente sair da sombra onde todos os dias se tinham habituado a vê-la. Mesmo que lhe tivessem perguntado nem ela própria saberia responder. Deixou-se ir...sem rumo definido, sem destino, simplesmente vaguear sem pensar, coisa rara, já que pensar era o seu passatempo predilecto...com ele voava por onde queria, sentia o que queria e vivia as suas memórias...ah, as memórias...de repente  sentiu pela primeira vez que mesmo as coisas que lhe pareciam pouco importantes e lhe passavam tantas vezes ao lado,  começavam a fazer sentido.

Começaram a desfilar lembranças e  pequenos detalhes que foram determinantes na sua vida...aquele olhar, o abraço, o sorriso imprevisto naquele rosto fechado, a visita inesperada, o presente sem ser dia de aniversário, o encontro algures , a conversa que despertou sentimentos adormecidos, a penumbra das noites de luar, a despedida de quem não queria que partisse, a chegada de quem amava, a permanência mesmo por pouco tempo que se fez eternidade, a chuva fora de tempo, o pôr do sol de um dia qualquer, o cheiro da terra, ou as súbitas tempestades...

Pela primeira vez não sentiu saudades, não quis o que não tinha, não desejou quem estava ausente, porque tudo o que foi, estava bem presente na sua memória. Não se lembrava de ter nascido, mas sabia que tudo o que guardava era a prova de uma vida que vivia a seu modo, a seu tempo, num qualquer espaço e com a certeza de viver intensamente cada instante e de ter pelo menos conseguido encontrar a paz e a quietude de todos os dias que queria continuassem  no cantinho das memórias.

 

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