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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Os Peter Pans que andam por aí

 

Li o livro "Histórias Sem Aquele Era Uma Vez" e quem quiser saber um pouco mais sobre ele basta ir aqui e descobrir que se trata de um conjunto de histórias baseadas em contos que lemos na infância, mas que foram adequadas aos tempos modernos.

Uma das que mais me fascinou pelo realismo e lucidez foi a que escreveu Ana Paula Almeida, " Para Sempre Peter Pan" em que descreve o comportamento de meninos crescidos que continuam atemorizados e submissos em relação aos pais, por vezes sofrendo de um feroz complexo de Édipo e vivendo uma realidade fictícia enganando  e enganando-se, seguindo o que os seus progenitores projectaram nele para que alcance o que eles nunca conseguiram.

 

"É um metro e noventa, moreno, com ar atrevido e olhar profundo. Um menino grande.

Trocou a companhia da adorável Sininho com que todos sonham por um contrato vitalício com os pais, que defendem de quem quiser raptar este Peter dessa Nuncolândia, mal assumida. Contam-se pelos dedos as namoradas que teve.......

Vê em cada mulher um protótipo da Sininho que deseja.....

O pior é que antes mesmo de qualquer menina conseguir ir ao reino da fantasia já estão a ser avaliadas pelo Capitão Gancho. Um trauma para este Peter que conhece as princesas dos seus sonhos de noite, em bares e discotecas da moda, quando não é de dia pela Internet, qual predador em busca de presa. Tarefa fácil, sendo culto, distinto, um poliglota distinto e envolvente.

Geralmente cansa-se da carne antes mesmo de lhe tomar o gosto.

Não é tanto para saciar, antes pelo prazer da caça, o reforço do instinto "animal cavalheiresco".

Este namoradeiro corteja as mulheres que interessam, por e-mail, sms, mms, que telefonar sai caro e ir cansa. Para um flirt irrepreensível, manda flores com tiradas poéticas muitas vezes copiadas. Imita o que os outros conquistadores já fizeram e em momentos de crise de identidade imagina como seria chegar aos quarenta com a vida arrumada. Casa, carreira, amor e filhos, o pacote completo. Depois geralmente acorda. Poucos gostam de viver monotorizados, controlados, sem espaço, em permanente intersecção de afecto, asfixia amorosa.

Este Peter até sonha experimentar voar, mas o Capitão lá de casa cortou-lhe as asas, influenciado pela mulher, Pirata de outros ofícios, que sente ciúme de qualquer uma que seduza ou arrebata o que considera ser seu.

 

Sininho bate-lhe sorrateiramente à janela ou à porta de vez em quando.

De todas é o maior amor e há muito que leva este "Peter Pendente" ás costas para viagens longínquas, de outra forma ele só viajaria em pensamentos e através da literatura, da televisão e do cinema.

Juntos passeiam na praia, fazem jantares ao luar e riem, devolvendo-o ela á procedência antes que o Capitão e Pirata se apercebam que mesmo sem asas o amor poderá sempre voar muito alto e muito longe.

 

Peter gosta mesmo é de Sininho, um amor recíproco, que procura em todas as outras, a prestações. No fundo tem medos e inseguranças, fantasmas. Mas ainda acha que pode agir assim sempre que quiser. Que consegue dar e tirar sem se apaixonar. Até um dia.

 

Na vida real a sua Sininho também não é fada nenhuma, é de pele e osso, sete anos mais velha, embrenhada em dificuldades com duas crianças a tiracolo, a quem ela lê a verdadeira história do Peter Pan antes de adormecerem, para que possam sonhar com magias e brincadeiras de meninos que não querem crescer.

 

A ela falta-lhe a nobreza de um título, o estado civil imaculado, a conta bancária choruda e que os filhos ainda estivessem nos ovários, para que pudesse casar e viver feliz para sempre na Nuncolândia em que nasceu este Peter Pendente. Tão parecido com tantos outros, que deixam as Sininhos desta vida a suspirar de amor, quando se apercebem que nunca serão perfeitas para os que não querem ser homens. Homens que, sem darem conta, pensam que são o último oásis do deserto mas que estão sempre em saldos."

 

E mais á frente pode ler-se:

 

"Formosíssimos, parecem muitas vezes genuinamente enamorados  (mas não conseguem soltar um Amo-te, com medo que nisso se leia um compromisso, que horror).

 

Dos Pedros que por aí andam e se parecem com este "Peter Pendente", suspensos em si mesmos, não reza a história; só se atrevem a magoar uma ou outra pessoa até ao dia em que o sentimento lhes ferra, mas não é fácil que isso aconteça porque por essa altura já têm o coração deformado."

 

E a autora termina dizendo:

 

"Tudo é preferível a acreditar que ainda há pozinhos de perlimpimpim que mudam a vida a alguém de um dia para o outro, ou que se consegue transformar um Peter Pan que não esteja sempre a voltar atrás para ir buscar a própria sombra.

Aqui na Terra como no Céu os homens não mudam. As mulheres também não.

A perfeição não existe mas o Amor insiste."

 

Aqui fica apenas uma parte da história, o suficiente para que se possa avaliar os Peters que andam por aí.

Penso que nalgum momento das nossas vidas conhecemos ou ouvimos os desabafos angustiados de gente que teve o azar de ser Sininho para um Peter que julgaram ser genuíno, que amava, que era divertido e que em vez de se deixar levar era ele que transportava feliz a sua Sininho que amava sem medo do Capitão Gancho.

Quem nunca conheceu nenhum, fica o perfil dos Peters e se tiverem o azar de algum se aproximar com as características atrás descritas, fujam antes que se vejam enjauladas nos truques de um amor que nunca o será.

 

Aqui  encontra informação completa sobre o síndrome Peter Pan

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