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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Ausência

 

Hoje quero passar ao de leve pela vida, duvidar do meu eu, não ter consciência do momento e fugir da minha realidade. Quero vegetar irracionalmente e que as emoções me passem ao lado como se fosse uma brisa inofensiva que não deixa rasto.

Não quero lágrimas nem risos, nem sentidos despertos.

Quero que os olhos vejam sem olharem, quero semicerrá-los e não definir traços, contornos, cores...

Os ouvidos ficarão imunes ao som da música , do canto dos pássaros ou do barulho do mar.

Os meus braços desajeitados, flutuarão à deriva pelo meu corpo, sem encontrarem a solidez de um apoio, contorcer-se-ão, rodarão em movimentos desconexos e involuntários.

Quero planar acima da realidade,  que o corpo deixe de  ser. 

Quero ser embalada por uma lucidez irracional, ser envolvida, por um estado de semi inconsciência, um torpor e uma percepção indefinível de uma realidade recusada.

.Seduz-me esta fuga do real.

Os olhos que antes brilhavam com o nascer do sol, com o riso da criança, com a pequena flor que nasceu no meio do mato, a lua na noite calma, o mar em dias ensolarados, a pintura que está ali...deixaram de cumprir a missão de janelas para o mundo.

O conforto da ausência de emoções  é um estado ilusório de bem estar e de impunidade .

Observo lá do alto, alheia, imperturbável, intocável, saindo incólume de todas as agressões, gozando uma fuga que me atrai e que se confunde com a realidade. 

Sozinha...ou nem por isso?

Um bar, um bom petisco, o mar , fim de tarde, pôr do sol, música e amigos.

- Vens connosco ver o pôr do sol? Petiscamos e disseram-nos que vem um senhor tocar saxofone enquanto o sol se põe.

-Sério ? Não sabia...adoro saxofone!

- Então vais?

- Sim, claro que vou, a que horas nos encontramos?

-Nós só estamos despachados ás sete, por volta das sete e meia conseguimos lá estar.

-Ok, eu vou um pouco mais cedo para reservar mesa.

- Até logo , então...

-Xau...beijo

 

-Nuno...por favor, trazes-me uma imperial enquanto espero pelos meus amigos? Somos três.

 

"...Estranho...eles não costumam atrasar-se...O telefone..hum...

- Não podemos ir, faleceu a mãe de uma amiga nossa num acidente...desculpa..ficas chateada?

-Não, claro que não, tenho pena, mas compreendo, nós teremos mais oportunidades.

 

Comi sozinha..ou não?! Tive o sol, a música e o mar à mesa comigo

 

 

 

 

A menina de bata branca

De bata branca ás pregas com um bolsinho do lado direito, onde a sua mãe tinha bordado a ponto cruz a letra M, ali estava ela... sorridente, entusiasmada, um pouco apreensiva diante de trinta crianças, que habituadas que estavam a ter professoras mais velhas, mais formais e de ar sisudo, a olhavam com um ar curioso e  um tanto incrédulo. Talvez lhes tivesse  passado pela cabeça a dúvida se ela seria realmente professora ou uma menina, que como eles gostava de brincar ao faz de conta.

Franzina, de olhos vivos, sorriso rasgado que escondia um certo nervosismo, foi a pouco e pouco tentando mostrar que apesar dos seus dezoito anos, feitos há pouco tempo, não seria impedimento para que não a  respeitassem e que fosse exigente quando se tratava de trabalho.

 No recreio, a sua agilidade evidenciava-se nas corridas, no saltar á corda, numa dança de roda, nos saltos...as batas brancas misturavam-se.

Todos estavam encantados, nunca tinham tido uma professora que tanto corresse e pulasse  e mais radiantes ficavam quando ela lhes ensinava um novo jogo ou lhes propunha um  desafio mais arrojado.

Na aldeia um dos temas mais badalados na taberna, na fonte, no lavadouro, na mercearia...foi a professora/menina de bata branca ás pregas. Talvez por isso começaram a visitá-la  desculpando-se que era para saberem da filha ou do filho, coisa rara. Nessa época, poucos eram os pais que iam à escola a não ser que fossem chamados e geralmente eram-no pelas piores razões.

Um dia alguém bateu á porta, foi abrir e á sua frente apareceu um homem  de ar cansado,  pele queimada pelo sol, sulcada de rugas profundas e bem vincadas.

Nos pés umas botas ainda carregadas de terra, não foi difícil adivinhar donde vinha.

-Ó menina...disse ele de olhar carrancudo- chame a senhora professora.

- A professora sou eu. - respondeu

Os olhos com as pálpebras descaídas pelo cansaço, abriram-se desmesuradamente e a boca aberta evidenciava um  enorme espanto ao ver a figurinha que ali estava á  sua frente.

Recompôs-se rapidamente e entre dentes balbuciou:

-Devia ser proibido!

 

 

 

Aquela Flor

De braços abertos aproxima-se, rodopia, detém-se...olha sobranceira, sedutora, provocante, sensual...

Lentamente abre-se num sorriso, suspende-o...deixa-o no ar...

Lentamente estende as mãos, acaricia o corpo, apalpa, afaga...

Devagar, bem devagar...abraça-se, abraça, roda sem parar, num vaivém voluptuoso e sem sentido...

Devagar , bem devagar, despe o sorriso, solta a lágrima o suspiro e a saudade.

Desnuda-se, mostra-se, provoca, insinua-se...

E devagar bem devagar, solta o medo, fica altiva e imparável...entrega-se, suspira , suplica e ...VIVE

 

Yin e Yang

-Parabéns Raquel!!! Dá cá um grande abraço!

-Obrigada amiga, ainda bem que vieste.

- Já sabes que não sou muito de dizer aquelas coisas banais que se dizem porque é costume...felicidades...que contes muitos...que este dia se repita por muitos anos...bla, bla, bla...entre nós já não são precisas palavras, sabemos que ambas desejamos o melhor uma á outra.

- Sim eu sei e de  ti não esperava outra coisa.

-Estás feliz?

-Eh...faço os possíveis...

-Mau...não estou a gostar da resposta...vá desembucha,,o que se passa?

-Sabes... ele ainda não me deu os parabéns.

-Oh, não me digas! Então as coisas entre vocês não andam bem.

-Olha deixa lá, hoje não me quero preocupar, é o meu dia, vou ter aqui muitos amigos e tenho que estar radiosa.

- Pronto, pronto, mas não penses que escapas, um dia destes tens que deitar cá para fora essas magoazitas...olha trouxe-te uma lembrancinha, coisa insignificante, mas gostei, espero que gostes também.

-Oh, escusavas de te incomodar!

-Já reparaste no que estás a dizer sua tonta, isso é uma frase feita, achas que me incomodei?

- Desculpa...

- Uma caixa! Linda! Sabes que adoro caixas, esta então é particularmente bonita, com estes símbolos Yin e Yang, parece que estavas a adivinhar que talvez precise de tornar a minha vida um pouco mais equilibrada.

-Abre, abre...

-Uma velinha.

-Já que precisas de encontrar algum equilíbrio, acende-a, certamente te iluminará e ajudará a encontrar o teu caminho.

-Espantoso, tu não sabias de nada e acabaste por me dar um presente com um significado tão apropriado para o momento! Muito obrigada.

- Vai, olha estão a chegar mais convidados, eu fico aqui num cantinho a bebericar, se precisares de alguma coisa diz.

Raquel sorriu, cantou e encantou, fez um lindo discurso, agradeceu, partiu o bolo e fez questão que a primeira fatia  fosse para o marido.

No outro dia sabia que se teria de levantar cedo, que iria trabalhar loucamente e adiaria a conversa que teria de acontecer mais tarde ou mais cedo.  Esqueceria a falta de diálogo, os silêncios prolongados, o amuo sem motivo, a ausência de sorrisos e do abraço carinhoso, e perderia a conta ao número de dias em que não faziam amor

A busca pelo equilíbrio desejado ficaria adiado, sabe-se lá por quanto tempo.

22 de Agosto de 2008

Sentou-se em frente da estante...uma a uma foi abrindo gavetas e tirando papéis da prateleira.

Já passou um ano...chegou a altura de se desfazer de lembranças que preencheram a sua vida durante trinta e quatro anos.

Lentamente foi abrindo envelopes, desfolhando documentos, enquanto visualizava cada momento...tantos momentos!

Planificações, sumários, planos de actividades, actas, relatórios... foram sem cerimónia, directamente para o caixote do lixo.

Chegou a parte mais difícil, a que lhe tocava o coração. Sem pressa foi desdobrando   pequenos bilhetes, poemas, desenhos, histórias...

Lê comovida  frases que lhe foram dedicadas, escritas em papelinhos coloridos enfeitadas com florinhas. Olha para o desenho do menino que não tinha jeito para escrever, e que encontrou uma forma de demonstrar o quanto gostava dela..."Gosto muito de ti professora!...Francisco".

Os olhos percorreram a letra dos muitos poemas que lhe ofereceram, caligrafias perfeitas, adornadas com pássaros , flores e o sol...sempre o sol, e por baixo..."Para a minha professora, com um beijinho da Catarina"

 Bilhetinhos minúsculos, enfeitados com corações que foram interceptados no meio de uma aula ..."Amo-te Joana.", ou "...és muito bonita Sofia." e outro, "...gosto muito da tua camisola Gonçalo...", foram saindo do pequeno envelope acastanhado.

De vez em quando recostava-se na cadeira e de  olhos semicerrados, sem fixar ponto algum, ia lembrando aqueles rostos  vivos, meigos, tristes, marotos...as brigas, as brincadeiras no recreio, as queixas dos mais sensíveis, as vozes de comando dos mais arrojados, o choro dos que eram alvo de algum pontapé, de uma escorregadela, de uma bola que acertava em cheio na cabeça de algum, das calças rasgadas de quem se atreveu a subir às árvores, das canções de roda, dos teatrinhos improvisados, dos baloiços que não paravam, das canções de roda...

Retomava vagarosamente a difícil tarefa de se desfazer de um passado que não poderá apagar, porque será impossível para quem trabalhou com crianças ignorar o amor e o carinho que recebeu ao longo dos anos.

Os papéis,  irão para o lixo, mas as emoções essas ficarão bem guardadas no seu coração.

De repente uma última folha cai no chão....

 

 

A sorrir

Eu quero rir-me, eu tenho de rir-me... não será certamente a reacção esperada, por  quem tem como objectivo machucar,  magoar, e pensar que está a abrir feridas que há muito estão saradas.

A convicção de que atingem o alvo é tão ilusória que dá pena.

A mesquinhez, o pensar pequenino, o perder tempo a arquitectar estratégias que visam reduzir a auto- estima, o amor próprio, o respeito, a sensibilidade, os valores e princípios que regem as pessoas de bem, é algo que me entristece e me deixa com a certeza que só a insegurança pode estar na origem de certos actos infantis e imaturos.

Quero continuar a rir-me, ou melhor a sorrir, ao mesmo tempo sentir que os meus olhos brilham, porque quero que seja sincero o meu sorriso.

Quero que as pessoas que amo e que me amam também, tenham a percepção que no meu sorrir, não há ironia, nem sarcasmo ou intuito de conseguir  algo mais do que a mútua partilha de emoções sinceras e genuínas.

 

PS: -Eu amo-te

Oito dias...sim, oito dias sem ver um raiozinho de sol aqui no oeste. O nevoeiro instalou-se por estas bandas, enquanto o resto de Portugal estava a arder (nalguns casos) e com temperaturas que deliciavam os que estão de férias e incomodavam quem tem de bolir.

Este meu cantinho abençoado tem destas surpresas a que já estou habituada. Estava quase a pensar rumar até ao sul, mas hoje, S. Ex.ª o Sol, resolveu aparecer.

Para me entreter enquanto esperava pelo solinho bom arranjei um livro  bem light, nada que me fizesse pensar, mas que me prendesse e se lesse rapidamente.

Escolhi um ao acaso, cativou-me o título; passeei os dedos pelas páginas, o toque era agradável, li uns parágrafos aqui e ali e decidi-me.

Confesso que gostei, por isso deixo aqui  um momento que me tocou especialmente.

 

"Minha querida Holly

Não sei exactamente onde estás ou quando irás ler isto. Espero que a minha carta te tenha encontrado bem e feliz. Há não muito tempo murmuraste-me que não conseguirias viver sozinha. Tu podes, Holly.

És forte e corajosa e podes ultrapassar isto. Partilhámos alguns momentos maravilhosos juntos e tu tornaste a minha vida...fizeste a minha vida. Não tenho nada a lamentar, mas sou apenas um capítulo na tua vida, haverá muitos mais.

Muito obrigada por me teres dado a honra de ser minha mulher. Por tudo te fico eternamente grato.

Sempre que precisares de mim, sabes que estou contigo.

 

O meu amor para sempre

Do teu marido e melhor amigo

Gerry

 

PS: Prometi uma lista, por isso aqui está. Os sobrescritos devem ser abertos exactamente de acordo com os rótulos e tens de lhes obedecer. E lembra-te, estou a vigiar, por isso vou saber...

Poupa algumas nódoas negras e compra um candeeiro de mesa- de- cabeceira

PS: Eu amo-te"

 

Durante dez meses Holly abriu todas as mensagens que o marido lhe tinha deixado e conseguiu superar a dor da sua partida tão prematura

Que vergonha!

Depois de longas horas metida num avião cheguei ás sete horas e trinta minutos ao aeroporto de Amesterdão.Fomos obrigados a fazer check -out, sair para voltar a entrar de novo  e regressarmos a Lisboa.

Meia ensonada, cansada, nem me lembrei do que tinha na mochila.Tantas vezes tinha passado pelo mesmo, sem ter acontecido nada de anormal, que encarei tudo com a mesma descontracção de sempre.

Desta vez tudo aconteceu de uma maneira bem diferente do habitual.

Já na fila, chegou a minha vez de colocar a mochila no tapete e qual não é o meu espanto quando ouvi alguém dizer:

- Pode abrir a sua mochila por favor?

Sem nada suspeitar, corri o fecho e abri-a, mas sem meter a mão no interior.

Ele olha para mim com ar sério e pergunta:

-Costuma começar a beber logo de manhã?

-Eu? Não, claro que não- respondi espantada , sem entender o motivo de pergunta tão disparatada.

- Ai não?! Ao mesmo tempo levou a mão ao interior da mochila e eis que, presa nos dedos indicador e polegar, aparece uma garrafinha de vinho tinto, que eu bebi ao jantar e que nem acabei. Levantou-a bem alto para as quatro ou cinco filas de passageiros verem bem.

- Então o que é isto? Não me diga que não bebe... e começa cedo...hem?!

-Mas eu só bebo á refeição, coloquei a garrafa aí para poder comer mais á vontade e nunca mais me lembrei de tirá-la.

A voz saiu entaramelada, as pernas tremiam, devo ter ficado bem vermelha, olhei ao redor e toda a gente tinha os olhos postos em mim

Vendo a minha aflição, o rapaz não aguentou mais e sorriu. Foi então que percebi que ele não tinha levado a coisa muito a sério. Colocou a garrafa no lixo e disse com ar trocista:

- Vá lá... pode seguir...mas veja se  perde o hábito de começar a beber logo de manhã.

Olhei em volta já refeita de tamanha vergonha e vi que toda a gente sorria.

Eu sei que aquele momento serviu para atenuar e aligeirar o cansaço da dura viagem que todos tinham feito, mas escusava de ser eu a vítima.

 

 

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