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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Ricas Vidas!

Considero-me uma pessoa que tem tudo o que precisa. Consegui á custa de muito trabalho atingir todos os objectivos a que me propus, o que não quer dizer que se tenha esgotado a minha capacidade de sonhar e de querer sempre mais e mais e isso não passa por engrossar a minha conta bancária, mas sim pelo desejo de adquirir mais conhecimento, de me manter activa, de continuar a valorizar-me.

Vivo bem, vivo desafogadamente, posso permitir-me pequenos luxos, se é que podem chamar-se luxos, uma viagem de vez em quando, compras de roupitas novas ( qual a mulher que não gosta?!), assistir a bons espectáculos, cuidar de mim, ir a um bom restaurante e poder comprar para a minha casa alguns objectos que me fazem sentir bem e que me dão o conforto de que preciso.

Mas por vezes dou por mim a culpabilizar-me quando olho para os meus roupeiros atolados de roupa, malas e sapatos ou para as minhas caixinhas onde brilha toda a espécie de quinquilharia (colares, pulseiras e brincos...) e vai daí toca a despejar e a distribuir pelos que mais precisam, como se fosse uma forma de aliviar a consciência para a minha faceta mais perdulária.

Quando reparo nas dificuldades por que passa tanta gente que trabalha ou trabalhou tanto como eu e que não tiveram a mesma sorte que eu tenho , interrogo-me se será justa esta sociedade em que vivemos.

O meu mau estar e peso na consciência ficou ilusoriamente aliviado, quando fiquei a saber pelas revistas Sábado e Focus a quantidade de euros que despendem os nossos governantes em futilidades, ostentando uma riqueza que não condiz com o actual estado do País.

 

Ora vejamos:

Dos deputados e do Governo e autarquias pode ler-se na revista Sábado:

 

Em 2008, o Estado gastou 90,8 milhões de euros em gasolina para os seus 29 mil carros.

O banco de Portugal pagou á BMW mais de 210 mil euros por seis veículos e a propósito disto Medina Carreira diz:" Somos um país de mendigos com carros dignos da Arábia Saudita"

Em 2010 o Estado espera pagar 189,2 milhões em estudos, projectos , pareceres e consultoria.

O secretário de estado do Comércio, Fernando Serrasqueiro, mandou limpar dois tapetes de Arraiolos por 2.179 euros.

A Câmara de Lisboa gastou 9.784 euros em vestuário de cerimónia para os funcionários dos cemitérios.

A Câmara Municipal de Loures comprou 7.278,6 euros de espumante em 2010. O Estado comprou também  espumante no valor de 13.532 euros e o regimento de transmissões do exército adquiriu 4.200 euros de whisky novo.

 

Já na Focus pode ler-se sobre as regalias dos deputados:

 

O Parlamento para este ano aprovou uma verba para deslocações no valor de 3,9 milhões de euros.

Os deputados dispõem de um seguro de vida pago pela Assembleia, mas para além disso dispõem de benesses, que agradariam ao comum dos portugueses que têm de fazer as suas refeições fora de casa, como por exemplo terem café a 30 cêntimos, uma sandes mista por 65, uma Coca -Cola por 75, ou uma cerveja por 55, um whisky novo por 1,65 euros e ainda uma grande variedade de pratos por 4.90 euros.

 

O rol de despesas supérfluas e regalias de quem nos governa enumeradas nestas duas revistas não acaba aqui.

Gostava que acabasse esta provocação, sim, porque só podem andar a gozar connosco!

Ricas vidas no meio de um país de pobres cada vez mais pobres! 

 

Quanto vale a sua Felicidade? (By Julieta Barbosa)

 

"Uma pergunta me intriga: se hoje fosse o último dia da sua vida, como, com quem e onde você gostaria de estar? Experimente responder a isso sinceramente e veja para aonde as suas escolhas o estão conduzindo... É inacreditável, que uma questão aparentemente tão simples, possa nos levar a um estado de inquietação que nos remete aos primeiros anos de nossas vidas, quando - crianças ou adolescentes – ainda não sabíamos ao certo como agir e para onde ir. É perturbador, reconhecer que, em sua maioria, muitos vão resvalar pelas respostas fáceis, escondendo-se ao abrigo das decisões que não lhes permitem voltar atrás, quer seja por comodidade, por pura covardia ou por outro sentimento de somenos importância. Uma outra indagação se faz necessária para servir de complemento à primeira: afinal de contas, quanto vale a sua felicidade? Às vezes, tenho a impressão de que algumas pessoas vivem numa eterna ponte aérea, entre o ser ou não ser, o ir e o vir, o desejar e o deixar partir e entre tantos sentimentos contraditórios, se perdem nos labirintos das escolhas mal sucedidas. Não sabem se vivem de verdade ou se levam uma vida virtual. Parece que estão sempre empacotando junto com as suas coisas materiais, as suas mudanças internas de afetos e sentimentos mal resolvidos, numa eterna andança para lugar nenhum. Sempre ouvi dizer que o nosso lugar é onde está o nosso coração, mas o de algumas pessoas parece não estar em parte alguma. Vivem de mochilas nas costas procurando o seu espaço no mundo e esquecem de procurá-lo dentro de si. Passam tão pouco tempo consigo que já têm uma credencial permanente para a inadequação e outra para o deslumbramento... Não se atrevem a reavaliar as suas opções, as suas escolhas e amiúde, passam à vida em brancas nuvens. São andarilhos de caminhos incertos que sobrevivem economizando felicidades. Por isso, responda sinceramente: se hoje fosse o último dia da sua vida; como, com quem e onde você gostaria de estar? Feito isso, eu volto a lhe perguntar: quanto vale a sua felicidade?"

 

Tive alguma dificuldade em escolher um texto do livro que me ofereceu a minha amiga Julieta Barbosa do blog Reconstruindo Caminhos, tal a qualidade e arte de bem escrever que se respira em cada palavra que os meus olhos percorreram avidamente.

Há momentos na vida que nos surpreendem, que se fazem tão inesperados que o nosso coração parece explodir de contentamento e alegria. Foi o que me aconteceu quando recebi um email da Julieta que me dizia que por ocasião do seu aniversário, os seus três filhos a surpreenderam com a edição de um livro onde colocaram os fabulosos textos do seu blog. Bonita e merecida homenagem.

No livro cada um dos seus filhos descreve á sua maneira e de forma comovente o que pensam e sentem sobre a mãe.

Se mais não existisse, penso que só pelo amor e dedicação que transparece nas palavras deles, já valeu a pena ter vivido.

Julieta, não espero muito da vida, não lhe peço demasiado, apenas que me deixe usufruir de alguns momentos de felicidade como o que senti quando me concedeu o privilégio de conhecer um pouco mais da mulher que com enorme ternura sabe dar... dar afecto, compreensão e amizade.

Escolhi este texto, mas podia ter escolhido outro, mas, quando escreve sobre o quanto vale a felicidade, foi como se uma força me impelisse a dizer-lhe:

O que vale a minha felicidade Julieta? 
A minha felicidade vale o momento, porque a vida é feita deles... eu quero escolher os que me fazem feliz e este foi um dos que me deixou uma marquinha que guardarei no meu coração e se palavras houvessem não chegariam para definir o que sinto.

Muito obrigada amiga.

Serão precisos festivais?

Há muito tempo que me considero uma pessoa que respeita credos, raças, cor, ideologias políticas, orientações sexuais, costumes... sem descriminar nem criticar.

Já lá vai o tempo em que defendia tudo em que acreditava, sem ter em conta que o que era bom pra mim, podia não o ser para os outros. Hoje limito-me a pensar, reflectir, tiro as minhas conclusões e aceito sem fazer críticas ou condenar, por isso coloquei a mim própria algumas questões sobre um festival gay, poliamorosos e lésbicas, que decorreu no Algarve.

Não compreendo porque são necessárias exibições desta natureza. Será para reafirmarem a sua orientação sexual, ou terão outros objectivos que me escapam? Será pelo gosto de se exibirem? Será mera provocação? Será que se sentem descriminados pela sociedade? Será que querem convencer alguém que o amor deles é melhor que o dos heterossexuais? Porquê tanto alarido, agora que foram tomadas medidas para legalizar o casamento dos homossexuais, embora elas tivessem surgido depois do festival, sabendo-se de antemão que se andava a tentar chegar a acordo sobre essa matéria?

Espero que com a promulgação do casamento dos homossexuais pelo Presidente da República, acabem com estes desfiles que em nada dignificam uma classe que quer ser levada a sério e respeitada.

Felizmente há excepções e eu tenho a sorte de ter amigos homossexuais que vivem normalmente a sua relação, sem alardes, sem exibições, com equilíbrio e perfeitamente integrados.

 

Hoje há festa no jardim dos girassóis!

O dia amanheceu calmo. Uma pequena brisa fazia ondular suavemente os girassóis, que rodeavam a casa da Libelinha.

Uma imensa mancha amarela, salpicada de folhas verdes, reflectia os primeiros raios de Sol. O silêncio próprio de um amanhecer que fazia adivinhar um dia tranquilo, era apenas interrompido pelo suave piar dos pássaros que faziam voos rasteiros, procurando alguma minhoca desatenta.

Libelinha adormeceu tarde porque decidiu dar um ar ainda mais alegre e primaveril ao seu cantinho. Colocou cortinas novas nas janelas, á porta vasos de malmequeres e amores perfeitos ladeavam um pequeno carreiro que circundava a pequena casa. A sala onde se aninhava todas as noites, também parecia diferente. Sacudiu os tapetes, varreu, limpou o pó, mudou de sítio algumas fotos que expunha aqui e ali. Lençóis coloridos debruavam a cama onde agora dormia. Na cozinha ainda se sentia o cheiro da tarte de amêndoa que era a delícia de quem a visitava. A galinha em louça lá estava, guardando alguns ovos que tinham sobrado.

Pouco a pouco o campo de girassóis, outrora amarelo, começou a ser salpicado de outras cores que vieram em segredo fazer-lhe uma surpresa. Vieram de todo o lado, algumas atravessaram o mar e fizeram questão de também hoje se fazerem presentes. Caminhavam cautelosamente, avisando-se umas ás outras quando faziam algum ruído que as denunciasse.

A amizade vinha de rosa, a simplicidade preferiu o branco, a alegria fez questão de escolher um vestido bem colorido, o sorriso e a gargalhada que eram gémeas vieram de azul, o amor preferiu o vermelho, sabia que seria facilmente identificável com essa cor que toda a gente associava ao coração e ao sentimento mais nobre. A cumplicidade teve alguma dificuldade nas escolhas, já que se identificava com todas as suas amigas, mas decidiu-se pela cor violeta. De repente do amarelo da paisagem surgiu um arco-íris.

Lentamente aproximaram-se da casa e todas em uníssono gritaram:

-Libelinha acorda!

Estremunhada, levantou-se estranhando aquele barulho enorme, que contrastava com o silêncio a que estava habituada, ainda pensou que tivesse sido um sonho, mas de novo as vozes se fizeram ouvir:

-Libelinha acorda!

Caminhou em direcção a janela e abriu-a de par em par...foi então que de boca aberta, sem conseguir articular palavra ouviu um coro dizendo:

Parabéns Libel!

Emocionada, deixou que uma lágrima teimosa rolasse, mas de imediato um enorme sorriso se estampou no rosto e abrindo os braços envolveu todos os que hoje se lhe juntaram para comemorar mais um aniversário.

 

 

Um dia recebi aqui no meu canto um bilhete que guardo carinhosamente e que mostra toda a nobreza de alma e o enorme coração da minha amiga. Dizia assim:

 

"Sabes uma coisa Manu, eu tenho sempre razão quando desafio esta minha mania de me apaixonar por tudo o que a vida me oferece, vivo na busca de motivos para que o encanto nunca termine. Sim, eu preciso, tenho necessidade de ser encantada constantemente, serão manias??....cheias de razoabilidade, penso eu!!...

Não sei onde quero chegar. Mas sei os caminhos que quero percorrer e sei quem quero levar comigo. Preciso de carinho, de música, de beijo, de abraço, de doce, de ser surpreendida, de emoção. Necessito de aventura, de intensidade, de amor, de paixão, de poesia..., de afagos e de gostar de mim!!..

Quero tudo que é quente, tudo que é gelado. O leve e o pesado. Correr e ficar parada. O oito e o oitenta, sem passar pelo meio termo. O carinho e a cólera. A sensibilidade de um olhar e a química de um toque. Viver para quem merece e morrer de amor. Será pretensão de minha parte??..Não. Encontro sempre uma razão para ser feliz.

Gritar até que ecoe do outro lado do mundo e ficar em silêncio, olhando para ti, para mim, para todos os que nos rodeiam e sorriem para nós. ... Quero mil amores, mil amizades à primeira vista e um milhão de finais felizes. Uma razão sentimental.

É preciso encontrar razão em alguma coisa, lutar pelos objectivos, não deixar de ser, nem de fazer, tão pouco de ouvir, mas sempre no alcance da felicidade. Isso sim eu chamo de ESCOLHA!!..."

 

Parabéns Libel!

Um beijo enorme da tua amiga Manu!

 

Uma história com números

Estava sozinho, mas nem por isso deixou de fazer o que mais gostava. Preparou tudo para que as coisas acontecessem. Sentiu-se um pioneiro. Começou a abrir caminhos

Independente, sabia que só podia contar consigo e preparava-se para fazer acontecer. Era o número 1

 

Mais tarde apareceu o 2, amigo de partilhar, buscava a união através da diplomacia e de muita harmonia. Como gostava de trabalhar em equipa, juntou-se ao 1.Só faria sentido a sua existência se partilhasse objectivos e caminhos. Gostava do reconhecimento e de fluir harmoniosamente com tudo o que o rodeava.

 

O 3, criativo, expansivo, social, rico em dons artísticos e acreditando que só na interacção com os outros poderia expandir toda a energia e alegria de que era possuidor, apareceu para comunicar, expandir e fazer pleno uso dos seus sentidos.

 

O 4 apareceu para colocar alguma ordem, para criar regras, para trabalhar. Organizado, metódico e com algum apego aos bens materiais, fez uso da sua capacidade de trabalho, da perseverança, do sentido do dever e do sacrifício. Para ele nada era tão importante como o concreto, o material e era pouco dado a questões espirituais. Sentiu que era o sustentáculo do desenvolvimento.

 

Liberdade, liberdade, gritava o 5...amava-a acima de tudo. Era o aventureiro, queria saber e conhecer cada vez mais, porque sabia que era no conhecimento que residia a sua força. Era um eterno insatisfeito sempre á procura de respostas. Não se importava se tinha de romper com normas estabelecidas, rompia barreiras, deitava abaixo tabus, abalava convicções sociais e desmascarava hipocrisias. Impulsivo por natureza, violento por vezes, tinha consciência, que apesar de ser um elemento perturbador, era um arauto do progresso.

 

Estabilidade, afecto, responsabilidade, pois... tinha que existir um elemento que lutasse pela felicidade, desenvolvesse afectos, criasse raízes. A família, o grupo social onde nasceu, onde viveu, eram os pilares da sua felicidade. Estou a falar do 6, esse número que contribui para o bem estar dos que o rodeiam.

 

Ao contrário do 4, o 7 vivia para o espírito e para a interioridade. Era místico, intuitivo e agradavam-lhe os mistérios e o invulgar.

Amante da solidão, vemo-lo sozinho, longe do ruído e do bulício, tentando encontrar no fundo de si mesmo a serenidade que deseja.

 

Oh o 8, esse furacão...uma energia sempre pronta a explodir, capaz de transpor barreiras que parecem intransponíveis. Detesta rotinas, precisa de projectos novos, é um empreendedor. Cheio de força e perseverança alcança o seu poder material através da luta pelos seus objectivos. Sempre de sentidos bem despertos, usa-os com intensidade e vai conseguindo alcançar o que tanto ambicionou.

 

E neste grupo de números apareceu alguém que uniu através do amor, da compaixão e da abnegação. O 9, universalista por excelência, amando de forma incondicional, defensor da justiça, da generosidade e tolerância, ele sente-se feliz quando dá. Dá mas exige, não uma retribuição directa, mas uma evolução, um progresso e uma transformação. Não pede para si, mas para a humanidade em geral. Sente-se um missionário.

 

 

Hoje fazem parte da vida de cada um de nós, nem sempre os reconhecemos, mas estão presentes no nosso tempo, na nossa missão de vida, na nossa caminhada.

Com todos já vivi, já passaram por mim. Deixaram-me heranças e desafios.

Independente umas vezes, cooperante e partilhando tantas outras. Criei, inovei, ousei e entreguei-me ao trabalho, instalando alguma ordem na minha vida. Experimentei a liberdade sem libertinagem e ousei desviar-me do que era dado como certo em busca de algo fora de mim. Aquietei-me com afectos partilhados, sondei mistérios e recolhi-me, explodi, derrubei barreiras, persegui meus sonhos e hoje é dia 10 de Maio de 2010, um dia em que o 9 está presente, em que através das palavras, quero apenas dar sem nada receber em troca...quero apenas sentir 

 

Peregrinos contrariados

                                                   

 

A propósito da reportagem do pagador de promessas e do que li aqui voltei á minha infância.

Vivi até aos nove anos numa aldeia que ficava a treze quilómetros de Fátima.

De tempos a tempos a minha avó e a minha mãe lembravam-se de pegar em mim e nos meus irmãos e decidiam ir a Fátima a pé, com o pretexto de terem de cumprir uma promessa.

Contrariados lá íamos. Não percebia porque é que elas prometiam e tinham que nos levar a nós.

Escusado será dizer que durante a viagem aconteciam muitas peripécias. Cansados, esfalfados, usávamos todas as artimanhas para parar o máximo de vezes no caminho. Umas vezes era a fome, outras a sede e outras os xixis. Entre resmunguices, lamentos e por vezes um estalo por faltar a paciência, lá íamos, impacientes, mas conformados.

A família toda recorda a exclamação do C. na altura com quatro anos , quando avistou a torre do santuário e disse"- Ai mãe, mãe, a Fátima é tão grande!" Pobre criança! De vez em quando a minha mãe pegava nele ao colo, eu até tinha pena dela, ele não era propriamente uma criança franzina.

Chegados ao santuário havia ainda o terço e a missa. Ajoelhados, de mãos postas, quais três pastorinhos, penso que rezávamos para que aquilo terminasse depressa.

Não me lembro quantas vezes isto se repetiu, mas lembro-me de um dia ter ganho coragem e dizer "basta". Era a mais velha e a mais refilona, disse que se quisessem prometer alguma coisa que o fizessem sem nós. Os meus irmãos de olhos arregalados esperavam um mau desfecho pela minha ousadia, mas resultou, as peregrinações acabaram.

Não entendo porque tive de viver isto, ou melhor talvez tivesse sido para perceber os exageros da fé e arranjar um ponto de equilíbrio em que fanatismo e ateísmo ficassem nos extremos e nunca nenhum deles, pudesse algum dia fazer parte das minhas práticas.

De vez em quando vou a Fátima, não vou rezar, não vou cumprir nenhuma promessa, apenas quero "estar", sem pensar, tentando apenas entender o que ando por aqui a fazer e qual a minha missão neste mundo.

E num último gesto acendo uma vela, tal como faço todos os dias em minha casa, com esperança que a luz se faça quando não consigo descobrir o que está para além de mim.

 

 

Escrava do Tempo

 

Naquele dia o mundo parou para ela, era como se o tempo que até ali tinha sido pródigo em amargura, desdita e sofrimento, tivesse feito um intervalo e os ponteiros do relógio tivessem parado num instante que ela desejou que terminasse depressa.
Olhou pelos minúsculos buracos rasgados no manto que a cobria e circundou com o olhar a praça onde estava exposta e onde muitos homens sonhavam comprá-la.
Recordou o tempo em que pôde brincar nos campos ensolarados das estepes chinesas. Lembrou o som do rio que deslizava tranquilo e onde tinha chapinado com alegres risadas que se misturavam com o chilrear de aves que sobrevoavam pachorrentas por entre a vegetação.
Mas agora o tempo era outro, não tinha escolhas, estava resignada, o seu coração calejado e dorido já não sabia o que era dor, estava imune a tudo, como se um escudo a protegesse e não deixasse que uma ou outra coisa a emocionasse.
Nos olhos nem uma lágrima.
Atrás dela sua mãe ouvia as ofertas que ia recusando uma a uma, sabia que estava a vender um tesouro, uma jóia que iria dar sorte ao homem que tivesse dinheiro suficiente para a comprar.
Falava-se da sua beleza, dos seus olhos acastanhados, da doçura da sua expressão, do poder que tinha para transformar tudo o que a rodeava.
Indiferente, apática, parada num tempo que passou, ela intimamente pedia para que aqueles instantes fossem irreais, pedia para que tudo terminasse depressa.
E terminou...ele acercou-se dela e fez a melhor oferta.
Continuou sem rumo, sem hora, servindo, obedecendo e cumprindo uma espécie de pena que o destino lhe tinha traçado num tempo distante de um dia qualquer.
Os anos passaram e o sonho que julgava ter perdido reapareceu no instante em levada pelo vento voou rumo á liberdade.
Hoje, só ela sabe que a escrava de um tempo se foi, para encontrar outro tempo que ela escolheu...o tempo da liberdade.

 

(Texto do desafio em cadeia, round VI)

 

A saudade, a cumplicidade, a sensibilidade e a simplicidade, são palavras que formaram um elo de amizade entre pessoas que um dia resolveram aderir ao desafio proposto pela Marta.

Desta vez O Sorriso de Geia   decidiu que eu ficasse escrava desta iniciativa e construiu mais um elo que me deixou presa a emoções inesperadas.

Foi o espanto, a surpresa pela decisão que tomou ao escolher "A escrava do tempo" como continuadora deste tempo de partilha.

Agora já liberta de amarras conto voar por aí para motivar e incentivar à partipação de todos os que fazem dos seus blogues estandartes de amizade , de sonho e imaginação.

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