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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Chegada a Rovaniemi

De Helsínquia voámos durante cerca de duas horas até á capital  da Lapónia finlandesa. Logo á saída vimos um termómetro que marcava 17 negativos.

Metemos rapidamente as malas no autocarro que nos esperava e chegámos à cidade.

Apesar de serem apenas 16 horas a cidade já estava mergulhada na escuridão.

Fomos levados para um armazém onde muita gente andava de um lado para o outro vestindo e despindo uma série de coisas que só mais tarde percebi para que serviam quando me vi na mesma situação.

Botas, capacetes, cachecóis, peúgas, gorros, passa montanhas e macacões vermelhos e pretos, tudo em prateleiras devidamente arrumados.

Eu já ia com collants de licra, meias grossas até ao joelho, calças de neve, dois polares, um kispo, luvas cachecol e gorro, de maneira que de início não percebi o que estava ali a fazer.

-Que número calça?-36-respondi

-Agora calce estas botas 37 e estas peúgas de lã. Vá ali àquele caixote, escolha um gorro , um cachecol e um passa montanhas

Fiz tudo o que me mandaram e por fim enfiei um macacão que me cobria da cabeça aos pés. Estava tão atolada de roupa que para andar mais parecia uma astronauta no solo lunar. Para terminar um capacete.

Depois de tudo estar devidamente equipado, os mais novos e os mais idosos, seguiram de autocarro até ao hotel que ficava a uns 10 minutos dali, nós iríamos lá ter , mas de moto de ski, eu e os outros fomos até um parque de estacionamento onde algumas dezenas delas estavam estacionadas.

Segui-se uma breve lição de como funcionavam, afinal era só acelerar e travar, o pior vinha depois.

Duas pessoas por moto, eu recusei ser condutora, preferi ir como pendura, e ainda bem que o fiz

 

A princípio devagar, atravessámos um rio gelado e depois embrenhámo-nos mata dentro, em trilhos estreitos, ladeados de abetos, pinheiros e bétulas e de cada um dos lados do caminho uma altura boa de neve fofa e virgem.

 

A pouco e pouco o trilho foi ficando mais difícil, as mãos, os pés e as pernas gelavam, tentei nunca parar de mexer pés e mãos, quem me conduzia era compensado pelos movimentos e muita adrenalina que impediam que sentisse tanto frio, ao mesmo tempo que fazia um esforço para conseguir não resvalar nalguma subida ou descida mais acentuada.

Mas o inevitável aconteceu. Um dos skis foi aterrar na neve fofa e dali não saía, dando pela nossa falta, o guia veio ajudar e rapidamente continuámos.

Mais á frente um outro par estava caído, mas sem danos físicos. Chegou a nossa vez de emborcar a maldita moto e por breves instantes, que pareceram uma eternidade ficámos na escuridão e no mais arrepiante silêncio.

Gelávamos e ficámos a saber que estavam 40 graus negativos. Ninguém se ficou a rir de ninguém porque todos sem excepção se viram caídos na neve.

Cada vez era mais doloroso suportar o frio e quando conseguíamos aquecer as mãos sentíamos dores horríveis.

Atrevi-me a determinada altura a perguntar se faltava muito para chegarmos...35 minutos ...uma eternidade - pensei

Três horas de caminho para chegar ao hotel, 70 km percorridos para quem nunca pegou numa moto de ski foi obra.

Penso que foi a noite mais fria e muitos consideraram uma violência tamanha aventura. Já no final da estadia recordávamos com um sorriso aquela noite em que foram sem dúvida testados os nossos limites.

 

E como o post já vai demasiado extenso deixo algumas fotos de algumas coisas  que fiz nos dias restantes

 

 Pesca num rio gelado, mas não pescámos peixe nenhum

                                                                     

                                          Visita a uma quinta onde se criavam huskies e onde fomos puxados por eles...emocionante

Passeámos de trenó puxados por renas

Jantámos num hotel de gelo

Visitámos a aldeia do Pai Natal

Vistámos o Artikum museu , considerado em 1994 o melhor museu da europa

Fizemos muitos passeios de moto, mas de dia.

Passagem de ano

Muita música,

Fogo de artifício

Dança e champanhe

 

Paris ontem e hoje

Há cerca de vinte anos, eu e uma colega, resolvemos visitar Paris. Para nós era uma aventura , porque nunca tínhamos saído sozinhas para um país que nos era totalmente desconhecido.

Planeámos tudo até ao mais ínfimo pormenor. Falaram-nos o quanto era difícil viajar no metro e entendermos aquela profusão de linhas que perfuram a cidade. Fiz questão de o estudar minuciosamente e não nos saímos mal. Queríamos que fosse uma viagem cultural e durante quatro dias não parámos.

Sabíamos o quanto é caro comer em Paris, mas como o pequeno almoço do hotel era farto, arranjámos maneira de á socapa fazermos umas sandes com que nos deliciávamos sentadas num banco de um jardim qualquer. Lembro-me de arriscar comer um cachorro que comprámos num daqueles carrinhos de rua e que nos custou a módica quantia de 500 escudos,  e para cúmulo era horrível, metade foi para o lixo.

Como muita pena nossa nunca nos aventurámos a sair á noite, duas mulheres sozinhas nas ruas de Paris não era aconselhável.

Há dias regressei de novo á "Cidade Luz", desta vez acompanhada de duas francesas(mãe e filha) que quiseram visitar a família e amigos e que tiveram a gentileza de me convidar.

Foi uma visita completamente diferente da anterior, não foi melhor nem pior, foi apenas diferente.

Desta vez alugámos um apartamento que ficou muito mais barato que um hotel e fizémo-lo porque as casas dos familiares são tão minúsculas que seria de todo impossível albergar mais três pessoas. Conclusão, poupámos na comida e no alojamento e foi raro o dia em que não houve convites para jantar.

Foi enriquecedor porque as conversas permitiram-me ver o que há para além da grandiosidade dos monumentos. Abordaram-se muitos temas interessantes com a natural simpatia e bom humor dos franceses.

Pude conhecer um pouco da noite parisiense e aperceber-me da parte mais negra e sombria da noite, principalmente quando se tem de viajar de metro.

Foi obrigatório e delicioso fazer a viagem ao longo do Sena e como nunca tinha subido á torre Eiffel desta vez lá fui. Não fiquei particularmente encantada com o amontoado de ferro e das intermináveis filas para entrar, valeu a paisagem e as fotos que tive oportunidade de tirar. Para mim, visitas a torres acabaram, agora subir, só se for o Evereste.

No final dei por mim a pensar, na necessidade de alterar rotinas, tive a estranha e saudável sensação que bem lá no fundo uma viagem não transmite só conhecimento, tem ainda a particularidade de podermos ver o mundo e as pessoas de uma outra forma que inevitavelmente vão alterar o nosso dia a dia e a postura perante certas situações da vida. O cenário foi o mesmo, mas a forma como o interpretei foi diferente e acordou em mim certas memórias e hábitos que deixam de fazer sentido.

Na Cidade Luz para mim, fez-se Luz, e se me perguntarem porquê eu não sei responder, apenas sinto e não há lógica para o sentir apenas "é"

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