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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

22 de Agosto de 2008

Sentou-se em frente da estante...uma a uma foi abrindo gavetas e tirando papéis da prateleira.

Já passou um ano...chegou a altura de se desfazer de lembranças que preencheram a sua vida durante trinta e quatro anos.

Lentamente foi abrindo envelopes, desfolhando documentos, enquanto visualizava cada momento...tantos momentos!

Planificações, sumários, planos de actividades, actas, relatórios... foram sem cerimónia, directamente para o caixote do lixo.

Chegou a parte mais difícil, a que lhe tocava o coração. Sem pressa foi desdobrando   pequenos bilhetes, poemas, desenhos, histórias...

Lê comovida  frases que lhe foram dedicadas, escritas em papelinhos coloridos enfeitadas com florinhas. Olha para o desenho do menino que não tinha jeito para escrever, e que encontrou uma forma de demonstrar o quanto gostava dela..."Gosto muito de ti professora!...Francisco".

Os olhos percorreram a letra dos muitos poemas que lhe ofereceram, caligrafias perfeitas, adornadas com pássaros , flores e o sol...sempre o sol, e por baixo..."Para a minha professora, com um beijinho da Catarina"

 Bilhetinhos minúsculos, enfeitados com corações que foram interceptados no meio de uma aula ..."Amo-te Joana.", ou "...és muito bonita Sofia." e outro, "...gosto muito da tua camisola Gonçalo...", foram saindo do pequeno envelope acastanhado.

De vez em quando recostava-se na cadeira e de  olhos semicerrados, sem fixar ponto algum, ia lembrando aqueles rostos  vivos, meigos, tristes, marotos...as brigas, as brincadeiras no recreio, as queixas dos mais sensíveis, as vozes de comando dos mais arrojados, o choro dos que eram alvo de algum pontapé, de uma escorregadela, de uma bola que acertava em cheio na cabeça de algum, das calças rasgadas de quem se atreveu a subir às árvores, das canções de roda, dos teatrinhos improvisados, dos baloiços que não paravam, das canções de roda...

Retomava vagarosamente a difícil tarefa de se desfazer de um passado que não poderá apagar, porque será impossível para quem trabalhou com crianças ignorar o amor e o carinho que recebeu ao longo dos anos.

Os papéis,  irão para o lixo, mas as emoções essas ficarão bem guardadas no seu coração.

De repente uma última folha cai no chão....

 

 

publicado às 18:41

Dentro da minha mala

 

                                    

                                        

 Tenho várias malas, umas grandes, outras pequenas, rígidas, semi-rígidas, de cores diferentes,  conforme o sítio para onde vou viajar assim escolho a mala que melhor se adapta. No entanto há uma que anda sempre comigo, abro-a muitas vezes, tiro umas coisas, coloco outras, por vezes fecho-a com cadeado, não vá alguém atrever-se a " cuscar" ou mesmo roubar algumas jóias que me atrevo a colocar lá dentro, sim, porque nos dias que correm, viajar sem ter alguns cuidados pode provocar danos graves. Protejo bem esta mala, não quero vê-la amachucada, nem suja. é sem dúvida a minha mala preferida.

Hoje apeteceu-me dar uma vista de olhos nalgumas coisas que lá tinha arrumadas.

Mal abri, o amor que há muito estava atado sem se poder expandir , saltou logo, tomou novo fôlego, os meus olhos brilharam, sorri e deixei-o envolver-me.

A amizade essa olhou-me com um ar de poucos amigos e reclamou porque continuava a ter o mesmo espaço e os amigos aumentaram.

O carinho e a ternura inundavam a mala toda, aproveitavam cada espacinho vazio e aninhavam-se .

A compaixão estava a um cantinho meia envergonhada.

A raiva estava escondida, tratei logo de a pôr no lixo.

O medo estava disfarçado entre a ternura e o carinho, não tive ainda coragem de o deitar fora, mas a seu tempo vou desfazer-me dele.

Qual não foi o meu espanto quando descobri o rancor, pensava que já  me tinha livrado dele,

decidi que era hoje que mandava o malvado para bem longe.

Descobri ainda o ciúme, a verdade, a força, a auto-estima, a tolerância, a saudade...tanta coisa!!!

Está a ser difícil deixar só o que  preciso para ser feliz.

Quero um dia abrir de novo esta mala e ter coragem de me livrar de coisas que ainda  a tornam  muito pesada.

Até lá vou ver se consigo arranjar um pouco de paz e equilíbrio para substituir alguma tralha desnecessária que ainda enche a minha malinha vermelha.

 

 

 

publicado às 15:12

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