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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Sou quem sou, porque somos todos um

 

Há histórias que nos deixam a reflectir sobre o modo como encaramos o colectivo, a união, a partilha e a solidariedade e quando essas mesmas histórias têm como protagonistas as crianças, percebemos ainda melhor o quanto os adultos têm que aprender com elas.

 

A que vou aqui relatar passou-se em África onde um antropólogo estava a estudar os usos e costumes de uma tribo africana chamada Ubuntu. Quando terminou o seu trabalho organizou uma brincadeira para as crianças: pôs um cesto muito bonito cheio de doces debaixo de uma árvore e propôs às crianças uma corrida, quem vencesse ganharia o delicioso presente.

 

Quando ele disse "já" todas as crianças deram as mãos e saíram correndo em direcção ao cesto e dividiram os doces entre si.

O antropólogo ficou surpreendido com a atitude e as crianças explicaram:

-Ubuntu tio, como seria possível que uma de nós ficasse feliz se todas as outras ficassem tristes?

 

Ele então percebeu a essência desse povo: não havia competição, mas sim colaboração.

 

Ubuntu significa: sou quem sou, porque somos todos um.

 

 

 

Adopção - 2 anos depois

Há uns tempo escrevi aqui e aqui   o percurso de um casal amigo, que reside na Suiça, na tentativa de conseguirem ter um filho.

Foram dez anos de muita luta, muito sofrimento, muitos esforços gorados e muita desilusão. Foram dez anos de esperança que  iam acalentando por cada novo tratamento que experimentavam...tudo em vão.

Um dia já sem forças e com danos de saúde física e emocional, resolveram partir para a adopção. Fizeram-no primeiro em Portugal, mas dado os enormes entraves que lhes eram colocados, passaram para a adopção internacional.

Através de amigos ficaram a saber que na Etiópia o processo de adopção estava muito facilitado, era célere e o sistema funcionava muito bem.

No dia 23  de Agosto de 2008 receberam a primeira foto da M. com três meses. Aceitaram-na de imediato.

Viajaram até á Etiópia, comoveram-se com a precariedade das condições dos orfanatos, mas também com o enorme carinho e cuidados com que eram tratadas todas as crianças, apesar da falta de meios humanos e materiais.

A 22 de Novembro a M. passou a ter uma família. Fez em Junho dois anos e veio há dias passar com os pais um mês a Portugal.

Fiquei espantada com a maneira como se tem desenvolvido...pula, canta, fala umas quantas coisas em português e já vai dizendo outras em alemão. A mãe resolveu pô-la na escolinha alemã dois dias por semana, porque, pensa ela, que uma boa integração num país estrangeiro passa pela aprendizagem da língua, apesar disso não abdica da filha durante o resto da semana, para poder assistir ao crescimento da sua bebé e ao mesmo tempo não perder nenhuma das suas pequenas conquistas. 

Esta é a prova que sempre que se está no caminho certo vale a pena lutar sem desistir dos objectivos para que um dia os sonhos se tornem realidade.

Nem sempre estive desperta para os problemas que têm os pais que querem um filho, mas vivi de perto toda a história e a pouco e pouco através deste blog   fui-me apercebendo das dificuldades por que passam as pessoas que se candidatam a uma adopção e todo o processo burocrático a que estão sujeitas.

Neste mundo conturbado é bom saber que ainda se encontram pessoas de coragem, com um enorme altruísmo e de entrega total a uma causa nem sempre fácil.

 

 

"A força não provém de uma capacidade física e sim de uma vontade indomável." (Mahatma Gandhi)

Peregrinos contrariados

                                                   

 

A propósito da reportagem do pagador de promessas e do que li aqui voltei á minha infância.

Vivi até aos nove anos numa aldeia que ficava a treze quilómetros de Fátima.

De tempos a tempos a minha avó e a minha mãe lembravam-se de pegar em mim e nos meus irmãos e decidiam ir a Fátima a pé, com o pretexto de terem de cumprir uma promessa.

Contrariados lá íamos. Não percebia porque é que elas prometiam e tinham que nos levar a nós.

Escusado será dizer que durante a viagem aconteciam muitas peripécias. Cansados, esfalfados, usávamos todas as artimanhas para parar o máximo de vezes no caminho. Umas vezes era a fome, outras a sede e outras os xixis. Entre resmunguices, lamentos e por vezes um estalo por faltar a paciência, lá íamos, impacientes, mas conformados.

A família toda recorda a exclamação do C. na altura com quatro anos , quando avistou a torre do santuário e disse"- Ai mãe, mãe, a Fátima é tão grande!" Pobre criança! De vez em quando a minha mãe pegava nele ao colo, eu até tinha pena dela, ele não era propriamente uma criança franzina.

Chegados ao santuário havia ainda o terço e a missa. Ajoelhados, de mãos postas, quais três pastorinhos, penso que rezávamos para que aquilo terminasse depressa.

Não me lembro quantas vezes isto se repetiu, mas lembro-me de um dia ter ganho coragem e dizer "basta". Era a mais velha e a mais refilona, disse que se quisessem prometer alguma coisa que o fizessem sem nós. Os meus irmãos de olhos arregalados esperavam um mau desfecho pela minha ousadia, mas resultou, as peregrinações acabaram.

Não entendo porque tive de viver isto, ou melhor talvez tivesse sido para perceber os exageros da fé e arranjar um ponto de equilíbrio em que fanatismo e ateísmo ficassem nos extremos e nunca nenhum deles, pudesse algum dia fazer parte das minhas práticas.

De vez em quando vou a Fátima, não vou rezar, não vou cumprir nenhuma promessa, apenas quero "estar", sem pensar, tentando apenas entender o que ando por aqui a fazer e qual a minha missão neste mundo.

E num último gesto acendo uma vela, tal como faço todos os dias em minha casa, com esperança que a luz se faça quando não consigo descobrir o que está para além de mim.

 

 

A luta por um filho-II

 

Hoje recebi o relato do final da odisseia da C. e do E. sobre a dura luta que travaram para ter uma criança.

Ela diz assim:

"Dezembro de 2002- o meu corpo e a minha alma, precisaram de um ano para se recomporem do choque sofrido com a perda do nosso bebé.

Como já tinha sofrido tanto , comecei a habituar-me á ideia de não poder ter filhos. Eu e o meu marido optámos por ver o lado positivo...tínhamos uma vida sem grandes encargos, uma bela casa, íamos de férias para onde nos apetecia, jantares e festas com amigos, comprar o que nos apetecesse...mas nos momentos em que percebíamos que tínhamos tudo, sentíamos que nos faltava o mais importante: UM FILHO.

Começámos a pensar na adopção.

Uma das vezes em que fui de férias a Portugal, informei-me onde e como poderia fazê-lo.

Fiquei desiludida , quando me disseram, que como era emigrante não me poderia inscrever na lista de espera portuguesa, só na internacional. Disseram-me até para desistir, mas quando regressei á Suiça, pedi o contacto da direcção geral de adopções, iniciei o processo, e passei a ser contactada por uma assistente social suiça, que veio várias vezes a minha casa. Compareci a todas as entrevistas e reuni uma montanha de papéis. Quando acharam que o dossier estava completo, enviaram-no para Portugal.

Pedimos uma criança de zero a três anos, foi-nos dito que isso era impossível, só se tivesse problemas de saúde. Respondi que aceitaria desde que o problema não impedisse que a criança no futuro tivesse de depender de alguém. Reconhecia os meus limites e sabia que não teria condições para adoptar uma criança com deficiência mental profunda.

A primeira proposta chegou. Um menino de quatro anos com síndrome alcoólico profundo. Sabia o que isso implicava, escola especial, acompanhamento médico constante e uma dedicação total da minha parte. Mais uma desilusão, tive de recusar,  ainda hoje penso no que terá sido feito daquela criança.

No dossier enviado para Portugal, ia a autorização para adopção de apenas uma criança, mesmo assim recebi mais duas propostas: a primeira dois irmãos e a segunda três, todos com mais de cinco anos.

Estava a ficar zangada com o mundo, sem perceber porque estava a ter de passar por tudo isto. Sabia que em Portugal existiam instituições que acolhem  crianças e que só as dão para adopção quando chega a idade escolar, porque a partir daí deixam de ter apoio do estado.

Entretanto conheci uma família Suíça que tinham um filho, mas como não podiam ter mais, adoptaram duas meninas etíopes, uma de três meses e outra de seis anos. Contaram-nos a sua experiência e decidimos tentar.

Estávamos em 2006. Contactámos a Prokind (associação Suiça que trata das adopções na Etiópia).

Começámos tudo de novo.

No dia 23 de Agosto de 2008 recebemos a notícia que poderíamos ser pais  de uma menina de três meses, 53cm, 3.900Kg. Mesmo sem a conhecermos dissemos logo que sim. Passados uns dias recebemos a primeira foto...era lindíssima a nossa menina!

A 22 de Novembro apertei-a pela primeira vez contra o meu peito.

Estivemos oito dias na Etiópia, chorei todos os dias. O meu marido dizia:

- Não chores...eu respondia:

- Tantas vezes chorei de tristeza, deixa-me agora chorar de alegria.

Adorámos a Etiópia, as paisagens , a gentes, o acolhimento, os sorrisos.

O regresso correu muito bem; mais tarde queremos voltar para mostrar á nossa filha o país onde nasceu.

Enquanto escrevo ela dorme...de vez em quando olho-a e penso que tudo é um sonho.

Beijos da C+E+M"

 

Muito mais haveria a acrescentar, mas penso que o essencial foi descrito.

Para os muitos casais que estão em situações idênticas, espero que este testemunho de coragem e persistência, possa servir de encorajamento para continuarem a vossa luta. Há tantas crianças que precisam de nós! Não fosse a burocracia, tudo seria mais fácil.

Por ser um país pobre e com muitas crianças que são abandonadas á beira da estrada ou entregues a orfanatos, os processos de adopção são mais rápidos e bem organizados.

 

Durante o Verão pude partilhar momentos lindíssimos com esta família.

Há poucos dias dizia-me a C. ...a minha menina já anda...

Muito obrigada pela vossa disponibilidade e pelo vosso testemunho.

Beijos

Manu

 

 

22 de Agosto de 2008

Sentou-se em frente da estante...uma a uma foi abrindo gavetas e tirando papéis da prateleira.

Já passou um ano...chegou a altura de se desfazer de lembranças que preencheram a sua vida durante trinta e quatro anos.

Lentamente foi abrindo envelopes, desfolhando documentos, enquanto visualizava cada momento...tantos momentos!

Planificações, sumários, planos de actividades, actas, relatórios... foram sem cerimónia, directamente para o caixote do lixo.

Chegou a parte mais difícil, a que lhe tocava o coração. Sem pressa foi desdobrando   pequenos bilhetes, poemas, desenhos, histórias...

Lê comovida  frases que lhe foram dedicadas, escritas em papelinhos coloridos enfeitadas com florinhas. Olha para o desenho do menino que não tinha jeito para escrever, e que encontrou uma forma de demonstrar o quanto gostava dela..."Gosto muito de ti professora!...Francisco".

Os olhos percorreram a letra dos muitos poemas que lhe ofereceram, caligrafias perfeitas, adornadas com pássaros , flores e o sol...sempre o sol, e por baixo..."Para a minha professora, com um beijinho da Catarina"

 Bilhetinhos minúsculos, enfeitados com corações que foram interceptados no meio de uma aula ..."Amo-te Joana.", ou "...és muito bonita Sofia." e outro, "...gosto muito da tua camisola Gonçalo...", foram saindo do pequeno envelope acastanhado.

De vez em quando recostava-se na cadeira e de  olhos semicerrados, sem fixar ponto algum, ia lembrando aqueles rostos  vivos, meigos, tristes, marotos...as brigas, as brincadeiras no recreio, as queixas dos mais sensíveis, as vozes de comando dos mais arrojados, o choro dos que eram alvo de algum pontapé, de uma escorregadela, de uma bola que acertava em cheio na cabeça de algum, das calças rasgadas de quem se atreveu a subir às árvores, das canções de roda, dos teatrinhos improvisados, dos baloiços que não paravam, das canções de roda...

Retomava vagarosamente a difícil tarefa de se desfazer de um passado que não poderá apagar, porque será impossível para quem trabalhou com crianças ignorar o amor e o carinho que recebeu ao longo dos anos.

Os papéis,  irão para o lixo, mas as emoções essas ficarão bem guardadas no seu coração.

De repente uma última folha cai no chão....

 

 

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