Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

A menina de bata branca

De bata branca ás pregas com um bolsinho do lado direito, onde a sua mãe tinha bordado a ponto cruz a letra M, ali estava ela... sorridente, entusiasmada, um pouco apreensiva diante de trinta crianças, que habituadas que estavam a ter professoras mais velhas, mais formais e de ar sisudo, a olhavam com um ar curioso e  um tanto incrédulo. Talvez lhes tivesse  passado pela cabeça a dúvida se ela seria realmente professora ou uma menina, que como eles gostava de brincar ao faz de conta.

Franzina, de olhos vivos, sorriso rasgado que escondia um certo nervosismo, foi a pouco e pouco tentando mostrar que apesar dos seus dezoito anos, feitos há pouco tempo, não seria impedimento para que não a  respeitassem e que fosse exigente quando se tratava de trabalho.

 No recreio, a sua agilidade evidenciava-se nas corridas, no saltar á corda, numa dança de roda, nos saltos...as batas brancas misturavam-se.

Todos estavam encantados, nunca tinham tido uma professora que tanto corresse e pulasse  e mais radiantes ficavam quando ela lhes ensinava um novo jogo ou lhes propunha um  desafio mais arrojado.

Na aldeia um dos temas mais badalados na taberna, na fonte, no lavadouro, na mercearia...foi a professora/menina de bata branca ás pregas. Talvez por isso começaram a visitá-la  desculpando-se que era para saberem da filha ou do filho, coisa rara. Nessa época, poucos eram os pais que iam à escola a não ser que fossem chamados e geralmente eram-no pelas piores razões.

Um dia alguém bateu á porta, foi abrir e á sua frente apareceu um homem  de ar cansado,  pele queimada pelo sol, sulcada de rugas profundas e bem vincadas.

Nos pés umas botas ainda carregadas de terra, não foi difícil adivinhar donde vinha.

-Ó menina...disse ele de olhar carrancudo- chame a senhora professora.

- A professora sou eu. - respondeu

Os olhos com as pálpebras descaídas pelo cansaço, abriram-se desmesuradamente e a boca aberta evidenciava um  enorme espanto ao ver a figurinha que ali estava á  sua frente.

Recompôs-se rapidamente e entre dentes balbuciou:

-Devia ser proibido!

 

 

 

publicado às 00:40

No colégio de freiras

Depois de pela primeira vez ter saído de casa, o destino foi um colégio de freiras.

Um mundo completamente diferente esperava por ela.

Habituada a ter o seu espaço e as suas coisas, teve de começar a partilhar com  trinta meninas um dormitório com camas de ferro alinhadas em três filas paralelas. Em topos opostos  um biombo resguardava as duas freiras que  vigiavam durante a noite.

Ás 7h 30 m  eram acordadas ao som de  palmas acompanhadas com o acender de luzes bem fortes e imediatamente seguidas das três ave-marias. Ensonadas lá tentavam responder. As mais despachadas iam a correr para os lavatórios para apanhar vez. Aí tinham de fazer autênticos malabarismos com o roupão que colocavam por cima da cabeça, para impedir que se visse alguma parte mais íntima..."-tenham pudor meninas..."-gritavam. Pudor?...nunca tinha ouvido tal palavra, mas calculou o que queria dizer.

Seguia-se a difícil tarefa de vestir; ajoelhadas entre as camas com o roupão sempre a cobri-las lá tentavam enfiar a roupa, mas com muita dificuldade. Depois de estarem compostinhas, levantavam-se e ajeitavam aquilo que tinha ficado torto.

Fazer a cama, arrumar a roupa, alinhar as camas verificar se nada tinha ficado fora do sítio, antecedia a entrada para a capela onde desfilavam, qual passerelle, sobre os olhares atentos de todas as freiras. Se um sapato ia mal engraxado, cabelo mal penteado, era suficiente para serem chamadas depois da missa e o raspanete não faltava.

Durante a semana a missa era rápida, nada de muitos cânticos, no fim de semana o padre alongava-se mais com o sermão que para ela parecia não ter fim. O que gostava mais era de cantar e cedo as freiras descobriram que tinha uma boa voz . Felizmente passou a cantar no coro, que ficava ao fundo da capela, assim acabava-se o desfile

Depois do pequeno almoço ia para as aulas, uma manhã inteira e parte da tarde.

Tudo era novo e parecia que aquilo não era tão mau como lhe tinham dito.
Conheceu meninas de vários pontos do país, fez grandes amizades que ainda hoje perduram.

A seguir ao lanche vinha a hora de estudo, sempre vigiado... o silêncio era total.

Cedo ela e outras começaram a arranjar estratégias para combater a rigidez e a disciplina.

Não faltaram as lanternas para  ler debaixo dos cobertores, os lanches nocturnos que partilhavam e quando percebiam que as freiras já dormiam iam pé ante pé para a cama umas das outras e cochichavam até que o sono aparecesse.

 Dia após dia ela foi-se apercebendo das injustiças e dos exageros.

A menina de ar sereno e pacífico lentamente começou a não calar, a dizer o que sentia...claro que se deu mal. Começaram os castigos: recreios cortados, lavar a louça e passou alguns fins de semana sem poder ir a casa.

Apesar de tudo nunca se calou. Apercebendo-se disso as colegas fizeram-na porta voz do seus descontentamentos;  no íntimo sabia que nunca deveria calar e aceitar atitudes que feriam e magoavam e baixinho gritava: "-Não é justo...não é justo..."

Mal ela imaginava , que muitos anos depois, o mundo continuaria a não ser justo, que seriam cometidas atrocidades que não iriam afectar apenas 30 meninas, mas milhões de seres humanos.

 

(continua)

                

 

 

publicado às 00:11

ELA

Nasceu numa aldeia.

Filha de pais humildes, teve a sorte de ser rodeada de todo o carinho e atenções.

A madrinha escolhida, vivia no Porto, senhora viúva sem filhos, que logo a encheu de mimos e a cobriu de prendas diferentes e nunca vistas na pequena aldeia.

Tinha os vestidos mais bonitos, bonecas de todos os tamanhos, brinquedos variados entre eles tachinhos , formas,  panelinhas, bolas, jogos...

Um dia lembrou-se de fazer o seu primeiro bolo. Farinha ,ovos , açúcar...misturou tudo , como via a mãe fazer e colocou numa forma de plástico; acendeu o forno e esperou.

Em vez do cheiro agradável natural de um bolo que ganha forma, sentiu o odor nauseabundo de plástico derretido, ficou desolada, talvez por isso nunca mais gostou de os fazer.

O tempo foi passando. A menina começou a descobrir coisas novas. Era muito teimosa, sempre que a mãe lhe mandava fazer alguma coisa , imediatamente dizia: "-Não faço...", " _não vou...", mas ainda estava a dizer isto e já estava a fazer.

Sempre aos pulos, a cantar em altos berros, a trautear as canções do momento apesar da mãe e avó lhe pedirem que se calásse um bocadinho.

Nunca foi de fazer perguntas, aninhava-se a um canto, tentando passar despercebida , mas atenta a todas as conversa dos adultos. A pouco e pouco todas as respostas que precisava apareciam.

Foram nascendo os irmãos, três rapazes. As bonecas foram postas de lado e começou a empoleirar-se nas árvores, a brincar com carrinhos de rolamentos. O que mais gostava era de ir ao ribeiro que corria perto e tentar apanhar peixes com um passador de rede. Morria de medo das sanguessugas, pensava que se alguma se colásse às pernas lhe iriam sugar o sangue, mesmo assim nunca desistiu de passar belas tardes com os manos, a brincar com a água donde saiam todos encharcados.

Cedo percebeu que aquele mundo era demasiado pequeno. Tinha a percepção que lá longe havia outras formas de pensar e de viver.

A vontade de saber mais e mais era muito forte. Apesar do amor que todos lhe dedicavam, soube sempre que mesmo longe teria ali o seu porto de abrigo, onde sempre se poderia  refugiar .

Um mundo novo estava à sua espera!

...E um dia partiu!....

 

 

publicado às 14:02

Mais sobre mim

imagem de perfil

Posts mais comentados