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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Escrava do Tempo

 

Naquele dia o mundo parou para ela, era como se o tempo que até ali tinha sido pródigo em amargura, desdita e sofrimento, tivesse feito um intervalo e os ponteiros do relógio tivessem parado num instante que ela desejou que terminasse depressa.
Olhou pelos minúsculos buracos rasgados no manto que a cobria e circundou com o olhar a praça onde estava exposta e onde muitos homens sonhavam comprá-la.
Recordou o tempo em que pôde brincar nos campos ensolarados das estepes chinesas. Lembrou o som do rio que deslizava tranquilo e onde tinha chapinado com alegres risadas que se misturavam com o chilrear de aves que sobrevoavam pachorrentas por entre a vegetação.
Mas agora o tempo era outro, não tinha escolhas, estava resignada, o seu coração calejado e dorido já não sabia o que era dor, estava imune a tudo, como se um escudo a protegesse e não deixasse que uma ou outra coisa a emocionasse.
Nos olhos nem uma lágrima.
Atrás dela sua mãe ouvia as ofertas que ia recusando uma a uma, sabia que estava a vender um tesouro, uma jóia que iria dar sorte ao homem que tivesse dinheiro suficiente para a comprar.
Falava-se da sua beleza, dos seus olhos acastanhados, da doçura da sua expressão, do poder que tinha para transformar tudo o que a rodeava.
Indiferente, apática, parada num tempo que passou, ela intimamente pedia para que aqueles instantes fossem irreais, pedia para que tudo terminasse depressa.
E terminou...ele acercou-se dela e fez a melhor oferta.
Continuou sem rumo, sem hora, servindo, obedecendo e cumprindo uma espécie de pena que o destino lhe tinha traçado num tempo distante de um dia qualquer.
Os anos passaram e o sonho que julgava ter perdido reapareceu no instante em levada pelo vento voou rumo á liberdade.
Hoje, só ela sabe que a escrava de um tempo se foi, para encontrar outro tempo que ela escolheu...o tempo da liberdade.

 

(Texto do desafio em cadeia, round VI)

 

A saudade, a cumplicidade, a sensibilidade e a simplicidade, são palavras que formaram um elo de amizade entre pessoas que um dia resolveram aderir ao desafio proposto pela Marta.

Desta vez O Sorriso de Geia   decidiu que eu ficasse escrava desta iniciativa e construiu mais um elo que me deixou presa a emoções inesperadas.

Foi o espanto, a surpresa pela decisão que tomou ao escolher "A escrava do tempo" como continuadora deste tempo de partilha.

Agora já liberta de amarras conto voar por aí para motivar e incentivar à partipação de todos os que fazem dos seus blogues estandartes de amizade , de sonho e imaginação.

publicado às 03:41

A Escrava

No centro da praça, algures no Oriente, ... ela ali estava. Rosto coberto...imóvel...como se de uma estátua se tratasse. Olhos parados, fixos num ponto indefinido, alheios a tudo; nos lábios nem um sinal de tristeza que uma ou outra ruga de expressão podesse denunciar. Ninguém via, ninguém queria saber...o véu negro cobria-lhe o rosto que embora com vida, há muito tinha morrido.

 Atrás dela uma idosa olhava em redor e ia recebendo as ofertas mais altas dos muitos homens que se encontravam interessados  na compra daquela jovem. Dizia-se, que casa para onde fosse seria afortunada. As mulheres daquela tribo tinham poderes especiais.

Sorte não teria ela , sabia que teria de servir toda a vida.

O preço que a velha senhora pedia era demasiado elevado, arranjar comprador não parecia tarefa fácil.

Viu o seu destino mudar quando do meio da praça surge um homem com porte distinto, altivo, seguro de si que com passada lenta se aproximou... fez a melhor oferta. Era português veio a saber depois. Sempre de rosto coberto,  serviu-o a vida toda.

 

Muitas vidas se passaram.

Escolheu nascer num outro local onde foi amada e acarinhada pela família, mas a recordação de anos vividos em cativeiro , provocou-lhe um desejo forte de sair dali... não queria prisões.

Ao longo do caminho foi escolhendo outras paragens, esperando sempre que uma deles fosse a última.

Houve alturas em que  se sentiu tão bem que o rosto outrora sem expressão, tomava um ar radioso, os olhos brilhavam e um sorriso estampava-se-lhe no rosto denunciando uma alegria que rapidamente se revelava efémera.

E partia...

Enquanto descansava  no intervalo de uma das suas curtas paragens, ele apareceu...olhos verdes, cabelo alourado, olhar meigo, sorriso franco e acolhedor...

O coração dela por momentos deixou de bater, susteve a respiração. o estômago apertou-se-lhe, como sempre acontecia em momentos em que sentia que algo de muito importante iria acontecer.

Pouco tempo passado estava casada com o mesmo português que a tinha comprado algures numa praça do Oriente.

Voltou á prisão! Tinha-se tornado de novo uma escrava.

Ensaiou várias fugas, todas elas em vão.

Um dia, reunindo não sabendo como, todas as forças que lhe restavam, fugiu.

Hoje, recolhida no seu canto, vive prisioneira de si mesma.

 

publicado às 22:04

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