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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

O meu...o nosso Natal

Sempre que chega o Natal, não resisto a comparar como  se vive hoje e como o vivi quando criança.

Hoje posso dizer que é uma época que me incomoda, que não sinto nada em especial.

Por aqui deixaram de existir os elementos aglutinadores mais importantes , para que se viva esta quadra em pleno, ou seja , a família, uns já partiram para sempre e outros quis a vida que seguissem outros caminhos bem distantes do meu.

 

Hoje abomino o consumo desenfreado e as multidões que se acotovelam nos centros comerciais para escolherem prendas para dar a alguém que também vai dar, para se enfeitar uma árvore que se deseja bem recheada de papéis e laçarotes coloridos que se rasgam avidamente numa noite em que a maior parte das pessoas nem sequer sabe o que se comemora, embora eu ainda ache maravilhoso o sorriso das crianças que recebem aquele presente tão desejado.

 

Há uns largos anos atrás, eu e os meus três irmãos, não tínhamos árvore de Natal nem se falava que naquela noite um senhor de barbas brancas desceria pela chaminé para entregar presentes, porque não havia dinheiro para presentes.

 

Para nós quatro a maior alegria era quando decidíamos fazer o presépio. Com uma cesta íamos ao musgo e ao barro e  laboriosamente fazíamos e desfazíamos cada uma das peças que se iam quebrando quando o barro secava.

 

Algumas pedras eram cobertas de musgo a fazer de montes, a cabana e a manjedoura eram improvisadas com restos de palha.

 

Discutíamos qual a melhor posição para os pastores, as ovelhas e galinhas. Desenhávamos com areia fina os caminhos e o regato era uma folha de papel azul, onde obrigatoriamente teria de ser construída uma ponte em barro. A estrela por cima da manjedoura completava  a nossa obra de arte.

 

Todos os dias mudávamos os bonecos de sítio porque achávamos que estavam cada vez mais próximos. Todos os dias reconstruíamos a ovelha que tinha ficado sem pernas, ou o pastor que se tinha partido ao meio.

 

Na noite de Natal, vestíamos as melhores roupitas, íamos à missa do galo, (dois quilómetros a pé), bem contentes porque no caminho encontrávamos os nossos colegas e apesar de ser de noite a estrada ganhava vida com o falatório das crianças e dos crescidos.

 

Todos ansiávamos pelo momento mais importante , aquele em que em fila, íamos beijar o Menino Jesus.

 

Regressados a casa e junto á lareira, onde tinham ficado a levedar a massa das filhós, a avó e a mãe encarregavam-se da parte doce da noite.

Eu como mais velha estava encarregue de as envolver com açúcar e canela e de lambuzar os dedos naquela mistura açucarada.

Um chazinho bem quente aconchegava-nos o estômago e dormíamos como anjos, não sem antes combinarmos que no dia seguinte teríamos de fazer os reis magos que tinham chegado atrasados.

 

publicado às 21:22

Crescer a trabalhar

Pensava eu que ia escrever sobre um assunto que já tinha em rascunho, mas de repente ao ler o post do Jorge lembrei-me também eu, da minha infância e do quanto trabalhei.

Era a mais velha de quatro irmãos e a única rapariga, o que á partida era uma desvantagem porque tudo me caía em cima, até á altura em que eles puderam começar a fazer alguma coisa. Não tive de ir trabalhar para ganhar dinheiro, mas para que os meus pais o pudessem fazer, tinha de lavar as fraldas do mais novo, naquela altura não haviam as descartáveis, nem máquinas, casa arrumada e varrida, de aspirador nem se falava e o pó, que eu detestava limpar, era o meu calcanhar de aquiles e como a mãe sabia disso, tinha inspecção minuciosa e voltava a fazer de novo, sempre a resmungar, como era meu hábito.

Com algum sacríficio e pensando eles que era para meu bem, tive de ir para um colégio de freiras onde fiquei interna até ao 5º ano(9º de hoje).

E se pensam que me livrei do trabalho, estão enganados, acho que duplicou.

Todas tinham tarefas, excepto as meninas mais ricas que pagavam mensalidades mais altas.

Levantar ás sete e meia da manhã, missa, arrumar o dormitório, lavar casas de banho e a seguir o pequeno almoço.

Parte do dia era passado em aulas, horas de estudo, algum recreio, quando não estava de castigo por causa da refilice, mas a louça das refeições era lavada por nós e já no final da tarde um grupo era colocado em frente a uma ou duas sacas de batatas que tinha que ser descascadas para que no dia seguinte fossem cozinhadas. Claro que o olhar atento das freiras não deixava escapar o truque da casca grossa, para a saca despejar mais rápido. O bom disto tudo eram as histórias que se iam contando, e as anedotas de algumas bem humoradas, mas se havia asneira um dos castigos era o silêncio e tudo tinha de entrar mudo e sair calado.

Durante muito tempo pensei que esta rigidez, esta forma de ter de trabalhar e estudar, não era justa, vendo eu que muita gente tinha o previlégio de não fazer nada.

Os anos foram passando e concluo que o que então me causava uma certa revolta, fez com que ao longo da minha vida, me tenha apercebido que cresci da melhor forma, que aprendi muito antes do tempo que era normal, a desenvencilhar-me, a ser independente, autónoma e a saber resolver de forma rápida qualquer imprevisto.

Vivi o que tinha de viver, mas confesso que fui uma mãe que não fez ao filho metade do que me obrigaram a fazer. Penso que lhe forneci as ferramentas necessárias para que pudesse saber um dia usá-las quando necessitasse.

Não sou apologista do trabalho árduo e penoso para as nossas crianças, mas também me constrange ver que há adolescentes cujos pais, de tão preocupados que estão em proporcionarem uma vida melhor do que a que eles tiveram, não deixam que os meninos aprendam o mínimo para que um dia possam pelo menos tomar conta deles próprios. Felizmente há excepções e conheço muitas, acima de tudo há que saber encontrar o caminho do equilíbrio para que um dia  possam encarar sem medos as primeiras dificuldades da vida. 

publicado às 01:21

Peregrinos contrariados

                                                   

 

A propósito da reportagem do pagador de promessas e do que li aqui voltei á minha infância.

Vivi até aos nove anos numa aldeia que ficava a treze quilómetros de Fátima.

De tempos a tempos a minha avó e a minha mãe lembravam-se de pegar em mim e nos meus irmãos e decidiam ir a Fátima a pé, com o pretexto de terem de cumprir uma promessa.

Contrariados lá íamos. Não percebia porque é que elas prometiam e tinham que nos levar a nós.

Escusado será dizer que durante a viagem aconteciam muitas peripécias. Cansados, esfalfados, usávamos todas as artimanhas para parar o máximo de vezes no caminho. Umas vezes era a fome, outras a sede e outras os xixis. Entre resmunguices, lamentos e por vezes um estalo por faltar a paciência, lá íamos, impacientes, mas conformados.

A família toda recorda a exclamação do C. na altura com quatro anos , quando avistou a torre do santuário e disse"- Ai mãe, mãe, a Fátima é tão grande!" Pobre criança! De vez em quando a minha mãe pegava nele ao colo, eu até tinha pena dela, ele não era propriamente uma criança franzina.

Chegados ao santuário havia ainda o terço e a missa. Ajoelhados, de mãos postas, quais três pastorinhos, penso que rezávamos para que aquilo terminasse depressa.

Não me lembro quantas vezes isto se repetiu, mas lembro-me de um dia ter ganho coragem e dizer "basta". Era a mais velha e a mais refilona, disse que se quisessem prometer alguma coisa que o fizessem sem nós. Os meus irmãos de olhos arregalados esperavam um mau desfecho pela minha ousadia, mas resultou, as peregrinações acabaram.

Não entendo porque tive de viver isto, ou melhor talvez tivesse sido para perceber os exageros da fé e arranjar um ponto de equilíbrio em que fanatismo e ateísmo ficassem nos extremos e nunca nenhum deles, pudesse algum dia fazer parte das minhas práticas.

De vez em quando vou a Fátima, não vou rezar, não vou cumprir nenhuma promessa, apenas quero "estar", sem pensar, tentando apenas entender o que ando por aqui a fazer e qual a minha missão neste mundo.

E num último gesto acendo uma vela, tal como faço todos os dias em minha casa, com esperança que a luz se faça quando não consigo descobrir o que está para além de mim.

 

 

publicado às 20:34

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