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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

All that I wanted

 
 
 
Como pano de fundo o mar de Peniche, um local que gosto de fotografar e uma música que me seduziu e me deixou embalada nesta tarde chuvosa e triste de um dia de Novembro, que é o retrato perfeito do que me vai na alma.
Dias assim é para deixar correr e esperar que amanhã o sol brilhe de novo, se não for lá fora , que seja dentro de mim, it`s all that I want.
 
 
 
 

Num dia de maré vazia

 

Sentei-me na areia ainda húmida daquela praia deserta de um qualquer dia de outono, em que a brisa suave me envolvia num refrescante momento em que deixei voar as emoções.

 

Uma ou outra gaivota rasgava o céu e as ondas vagarosamente se espraiavam no areal,  desenhando curvas de espuma branca e banhando os pequenos seixos transformando-os momentaneamente em pequenos cristais de luz.

 

Respirei o aroma da maresia e naquele instante transportei meus pensamentos, meus sonhos e emoções em cada vaga ondulante que ia e vinha.

 

Peguei numa pequena pena de gaivota perdida no areia e escrevi tudo o que a nostalgia de dias já vividos e sofridos se finassem como que por magia.

 

Mágoa, mentira e ilusão, três palavras apenas que escrevi naquela areia, na esperança de que quando a maré enchesse, levasse para bem longe sentimentos que quis abolir de vez, na esperança de que um dia talvez eu voltasse àquela praia de coração renovado e feliz , onde pudesse reescrever outras emoções, outro sentir, alegrias, amor, cumplicidade e sobretudo toda a verdade.

 

E por ali fiquei esperando por uma vaga alterosa levasse tudo o que povoa o meu coração já cansado e renovasse uma vida, a minha vida.

 

 

Madeira de ontem e de hoje

Visitei a Ilha da Madeira pela primeira vez em 1986, voltei de novo neste final de Julho.

O que vi agora pouco ou nada tem a ver com o que vi há uns anos atrás a não ser a eterna beleza das montanhas que desafiam o céu, que recortam o azul em figuras arredondadas, pontiagudas ou geométricas, as flores que ladeiam os caminhos e que nascem em sítios aparentemente sem vida, encavalitadas em rochedos e colorindo as estradas mais sinuosas, o mar de um azul vivo onde pachorrentos veleiros desfilam garbosos com os mastros desfraldados e onde aqui e ali se plantam rochedos que me fazem adivinhar figuras de gigantes e princesas encantadas. O casario lá está, em socalcos parecendo um altar, onde a brancura é entrecortada pelo verde das encostas, a temperatura amena faz-se sentir e só de vez em quando lá aparecia uma neblina, que rapidamente desaparecia.

Lembro-me de na anterior visita  ter passeado com muito medo por estradas estreitíssimas  que ziguezagueavam por entre montes e vales, e onde os precipícios me faziam crer que qualquer deslize podia ser o fim.

Aldeias perdidas em vales onde o sol mal chegava, pareciam casinhas de presépio de difícil acesso, só sendo possível contemplá-las lá do alto.

Hoje a Madeira parece que foi invadida por toupeiras que escavaram túneis perfeitos que nos fazem chegar a todo o lado e em pouco tempo. Para que não se esqueça o que existia antigamente , ao lado dessas magníficas obras de engenharia, deixaram-se algumas das antigas estradas nacionais, de vez em quando arriscava passear nelas de novo, porque não há túnel que substitua a beleza de cada percurso sinuoso que faz com que em cada curva o nosso olhar se perca em perfeito estado de êxtase, tal a beleza.

Da catástrofe que se abateu nesta ilha em Fevereiro deste ano, não há vestígios apenas um pequeno troço de estrada a seguir á Ribeira Brava que já está a ser reconstruído.

Não há lixo nas ruas e não me refiro só á cidade do Funchal, tudo aparenta uma ordem e zelo que me espantou.

Passear de catamaram durante três horas ao longo da costa, apreciar baleias e golfinhos que deslizavam elegantes perto de nós, comer bom peixe antecedido sempre pela oferta de um aperitivo a "Poncha", nadar em águas calmas e temperadas, passar uma tarde nas piscinas naturais de Porto Moniz, calcorrear a pé caminhos ladeados de rochas bem talhadas, subir e descer morros, deambular nas noites calmas pelas ruas...foram muitas das coisas que fizeram com que estes dias fossem perfeitos.

No Lobo Marinho fiz a viagem até Porto Santo, onde passei o dia e onde me deliciei com as águas límpidas e transparentes e onde pude admirar a iniciativa daquelas gentes que com tão pouco fazem tudo.

Como não sou pessoa de me ficar pelas aparências, andei uns tempos a tentar encontrar algum residente com quem pudesse conversar para saber se o exterior correspondia á realidade; essa oportunidade aconteceu quando, não me lembro bem como, entabulei conversa com

um casal de portuenses que há cinco anos escolheram a Madeira para viver e trabalhar...ele professor, ela psicóloga. Foi inevitável a conversa sobre o ensino...dizia ele que dificilmente regressaria ao continente, já que ali tinha óptimas condições de trabalho e que quando chegasse  Setembro tinha a certeza que teria a sua escola, na Madeira é impensável iniciar o ano lectivo com falta de professores. Dizia ainda que todas as crianças têm acesso a internet, inglês, natação, desporto e que até agora tinha sido completamente gratuito, apenas no próximo ano iria ser aplicada uma taxa moderadora. Em contrapartida, este ano vão ser oferecidos os livros a todos os alunos do 9º ano. O sistema de saúde também funciona muito bem e deu-me o exemplo que em Câmara de Lobos um concelho com cinco freguesias, tem seis centros de saúde e não se fala em fechar seja o que for. Perguntei se não havia pobreza, disse-me que talvez houvesse , mas que era escondida e que há ainda muito alcoolismo.

De tudo uma das coisas que mais admirei foi a simpatia dos madeirenses para com os continentais, já que antigamente só tratavam bem os estrangeiros. Talvez que com as dificuldades e a crise  tenham reconhecido que todos são bem-vindos independentemente da língua que falam

 

Na escola primária aprendi que a Madeira era a "Pérola do Atlântico", hoje continua inalterável a jóia que faz as delícias de todos quantos a visitam. 

 

Gosto...

 

Gosto de passear descalça na areia

de escalar montanhas

da chuva fora de tempo

do cheiro da relva acabada de cortar

de olhar as estrela e escolher uma que me proteja todos os dias.

Gosto de estar sozinha sem sentir  a solidão

das noites de Inverno á lareira

do pôr do sol, do mar, gaivotas e veleiros

de conversar com gente que sabe mais do que eu

do riso das crianças.

Gosto de aprender sempre coisas novas

de ler, pintar, de boa música e viajar,

viajar, viajar...

Gosto de viver intensamente

de sorrir

dos meus amigos

da minha família

e acima de tudo gosto...

a sério que gosto,

gosto muito de sonhar!

 

 

Kridaaaaaaaa???!!!

Margarida esperou que a última nesga de sol desaparecesse no horizonte, um momento que lhe provocava alguma nostalgia, sempre conviveu mal com as despedidas e ausências apesar desta ser bem diferente. Sabia que bastava esperar por um novo amanhecer que ele voltava e pensou quão curiosa é a natureza, que assume compromissos de regresso em troca de nada ; as flores reaparecem todas as Primaveras, as estrelas fazem-se presentes todas as noites, ininterruptamente e em ciclos perfeitos  a terra oferece-nos, em sítios aparentemente sem vida e após um Inverno desconfortável, a alegria e o cheiro de campos inundados de cor.

Embrenhada que estava nos seus pensamentos ,  quase se estava a esquecer de comer, não fosse uma dor fininha no estômago.

Um pouco mais atrás, uma esplanada, música e o burburinho de pessoas , fê-la pensar que ali podia estar o sítio ideal para comer qualquer coisa e terminar o seu dia da melhor forma.

Quando se aproximou, viu com algum desânimo que a esplanada estava cheia, no entanto por detrás havia uma sala enorme completamente vazia. Na porta que dividia estes dois espaços, três funcionários conversavam animados, tudo estava controlado, os clientes todos servidos.

-Por favor, posso jantar? - perguntou.

-Só se esperar, estamos a servir este grupo, talvez daqui a três quartos de hora estejam despachados - disse um deles com ar de satisfação, daqueles que adoram dizer que não.

-Mas a sala está vazia, eu não me importo de comer ali dentro.

-Ai kridaaaaaaa, não pode não, não temos quem a sirva.

Margarida , não queria acreditar...Kridaaaaa?! Ele disse Kridaaa, mas que é isto?!!! Desde quando se tratam as pessoas assim? Detestava que certos termos que deveriam ser utilizados em contextos apropriados, fossem profanados e banalizados daquela forma.

Semicerrou os olhos, fitou-o com algum desdém e antes de virar costas respondeu.

-Espanta-me não haver ninguém para servir, afinal o que está o senhor aqui a fazer? (acentoou bem a palavra senhor).

Margarida nem chegou a ver a reacção dele, mas isso já não tinha importância. Será que tinha sido suficientemente clara para que ele entendesse a incorrecção do tratamento?

No dia a seguir voltou ao bar, felizmente o "Krido" não estava lá.

Regressei

Passeio no areal, olho para trás e entretenho-me a ver os desenhos das minhas pegadas,  afundo os calcanhares ou saltito ao de leve, diverte-me ver o meu rasto deixado na praia, agora deserta.

As pedras são agora só minhas... de mil cores , lisas, brilhantes, preciosas, envernizadas pela espuma das ondas.

Desapareceram os ruídos que invadiram a intimidade que nos une há muito, as gargalhadas que abafaram os gritos das gaivotas, as cores das toalhas que disfarçaram o bronze das areias finas, os corpos que violaram o rebentar das ondas...tudo se foi.

Pude finalmente vaguear sozinha, num espaço que reclamo para mim, num tempo que me foi destinado.

Sem pressa, sem rumo, deixo-me envolver pelos raios de sol que me acolhem e embalam e me fazem sentir como se tivesse voltado a casa.

Sou recebida sem grande alarido, a paz que procuro encontrei-a aqui. O cheiro da maresia é a fragrância que desejo para completar um dia de Setembro.

Regressei.

Vagueando

 

Deixo que me leve o vento

ora forte, ora calmo.

Em dias de turbulência,

redemoinho num vaivém de atribulações que invento .

Descanso exausta

num lugar que imagino ser de sonho.

Ouço o sussurro de palavras que me chegam de longe.

Chega a noite... 

vislumbro a Lua que aparece e desaparece

num jogo de esconde esconde

com uma nuvem de matizes cinza e branco.

Entretenho-me a olhá-la,

descubro figuras que vai desenhando,

tento perceber o que esconde.

Penso que por detrás, bem escondido,

há um anjo, vigiando atento esta alma,

que vagueia em  fantasias e lembranças de outrora.

Deixo que  brilhe o sol,

promete aquecer o meu corpo dormente, gelado...

O mar traz-me em dias de maré alta

notícias de quem há muito partiu

e em tardes silenciosas leva para longe a saudade. 

Por aqui me arrasto ao sabor do vento e ao calor do sol. 

Deixo que todos os meus dias sejam diferentes

que  os meus devaneios me levem

para um mundo  que não este

para uma realidade que não é minha

para um destino que não foi traçado,

talvez por esquecimento...

ficou em rascunho o coitado,

ou mal feito... ou borrado...

à espera que um dia alguém,

pegasse neste bocado de gente

e rabiscasse num pouco de céu

o cenário desta vida

que nunca me pertenceu.

 

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