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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

A Máscara

O espectáculo está prestes a começar.

Lá atrás dá os últimos retoques nos lábios, ajeita o vestido,compõe a gola , aperta os últimos botões, olha-se ao espelho, ajeita a madeixa que teimosamente descai sobre a testa. Ensaia o sorriso, o gesto das mãos, a maneira de olhar, respira fundo enquanto fecha os olhos e relembra tudo o que estudou e ensaiou.

Não há luz, não há som, não há cor , apenas ela.

Sabe cada gesto, cada passo...

Lentamente o pano sobe.

Sorri, porque a proibiram de chorar, canta, porque alguém não gosta de silêncio, dança porque não é permitido parar.

Ouve lamentos, desabafos, consola e volta a sorrir.

Ensina o que nunca conseguiu aprender, voa sem saber voar, escuta o que nunca lhe tinham dito.

Apetecia-lhe chorar, falar sobre as sua fragilidades, os seus medos, os seus sonhos...dos encantos, de alegrias pasageiras, do amor, da saudade...não pode... está no palco, a plateia quer gargalhadas, fugir por momentos da realidade, sentir que está num mundo que tal como ela gostavam de ter .

E todos os dias quando o pano cai, despe-se de tudo, apaga as luzes e tira a máscara.

 

 

 

 

 

 

Em cima da minha mesa...

Em cima da minha mesa

Da minha mesa de estudo

Mesa da minha tristeza

Onde noite e dia....

..............................................

Começava assim o poema de José Régio, que eu deveria   declamar numa festa onde todos os estabelecimentos de ensino da cidade participariam.

Lá estariam as pessoas mais importantes : o bispo, o governador civil, o presidente da câmara e tantos tantos mais que nem me importei em saber.

O que me preocupava era desempenhar bem o meu papel e não deixar mal visto o nosso colégio.

Cantar, dançar, pintar, representar era o que melhor me podiam mandar fazer; esquecessem a matemática, a geografia, as ciências...eu queria era arte, drama, encenação, palco...

Durante semanas a fio a paciente irmã Sameiro fez-me repetir centenas de vezes o bendito poema, que volvidos tantos anos não esqueci.

...e lá recomeçava pela centésima vez:

...Em cima da minha menza...

- Não é menza, é mesa- gritava ela

...rasgo folhas...

- a tua voz, a tua boca, a tua entoação tem que dar a ideia de rasgar...mais vida, sente o que estás a dizer.

...e me estudo, eu já me estudo...

- Vá agora a expressão é outra, é como se  estivesses a dar uma novidade.

 Não fosse o meu gosto pela representação, teria desistido. Tantas brincadeiras perdidas, enfiada numa sala com aquela mulher possante á minha frente a gritar  vezes sem conta..."mesa" e eu a dizer outras tantas "menza"

Chegou o grande dia.

 Blusa branca, saia preta, cabelo comprido caído bem penteado, soquete e sapato a condizer...tudo parecia perfeito.

 Lentamente  subi as escadas do palco. As pernas tremiam, mas o pior foi o lábio inferior que parecia uma castanhola que eu tentei  parar com uma forte mordidela ...quanto mais mordia mais ele batia; por momentos julguei que o trabalho de semanas tinha sido em vão. O  micro estava demasiado alto para os meus minúsculos doze anos; enquanto o colocavam á minha altura, deu tempo para continuar a controlar  o meu tremor labial.

 Soltei as palavras... como por milagre o lábio parou de tremer. Não vi ninguém, não olhei para nada, os olhos perderam-se no infinito  vazios de imagens e cheios de emoção. Ecoaram palmas, senti que todos se levantavam...aplaudiam de pé...tinha conseguido!

 A última frase do poema permanecerá em mim até ao dia em que eu sentir que a poderei oferecer á única pessoa que a poderá dizer com o mesmo amor com que eu a disse há muitos anos atrás.

"Em cima da minha mesa tenho o teu retrato ...Mãe!"

                                       

 

 

No palco

Como me engano sorrindo!

Desfilo com ar de felicidade como se a vida me desse  aquilo que esperei.

O palco é meu, única actriz, personagem que inventei, cenário de mil cores que transformo ora em nuvens tenebrosas, ora em azuis  trespassados por raios de sol.

Noite e dia piso altiva o espaço que criei, num dia criança, solta e feliz, noutro, mulher indomável e segura.

Baixo as luzes... na penumbra  passeio descalça, despida de tudo, coberta de nadas, ávida de ter, chorosa, triste e fragilizada por derrotas que não mostrei. Arrasto-me sentindo no corpo o peso de sonhos que guardo, de afrontas que sofri, de injúrias de enganos e desilusões. A escuridão não deixa que vejam as lágrimas que rolam pelos sulcos das rugas escavadas numa face cansada macilenta e sem brilho. Não podem ver, não quero que vejam, não quero que tenham pena.

O cenário tem que mudar, depressa me desfaço das lágrimas, das rugas, da escuridão, do negro...solto uma gargalhada, visto-me de cores que invento..sou aplaudida, depressa descubro que dramas , mesmo que reais, não agradam tanto como a felicidade fingida.

Atiro beijos, canto, rodopio,  até consigo que volte o brilho dos olhos. Por momentos  esqueci que estava no palco. 

Quando o pano caiu com ele caí também e perguntei desesperada: -Afinal quem sou eu?

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