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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Se estivesse entre nós faria hoje 50 anos

 

 

Hoje escrevo de Rolando Palma, do poeta, do escritor, do fotógrafo, falo da sua sensibilidade do seu coração enorme e generoso, falo da cumplicidade que nos ligava e sobretudo de um grande amigo.

 

Quis o destino que a morte trágica o levasse cedo demais, mas nem por isso deixará de permanecer na minha memória e na de muitos que o visitavam e que liam as suas histórias de encantar. Os comentários que deixava tinham sempre um conteúdo que nos deixavam a pensar e nada era dito ao acaso.

 

Lembro-me como se fosse hoje quando eu e a Libel nos encontrámos e conhecemos em Lisboa. O homem que imaginei por detrás das letras estava ali à minha frente igual a si próprio, de sorriso afável, de palavra fácil e de uma simplicidade arrebatadora.

 

A partir daí muitas mais vezes nos encontrámos, já que os pais tinham uma casa aqui bem perto de mim. De vez em quando chegava um telefonema:

-Manu vamos jantar? Manu vamos à Nazaré tirar fotos? Manu queres ir às pinhas comigo e com a prima Teresa? Manu vamos à feira a Palmela ter com o Jorge Soares?

Falávamos de tudo e sobre tudo, embora existissem temas que eram tabu e que eu respeitava, sobretudo quando se tratava de assuntos do coração.

 

De vez em quando lá vinha um desabafo, sabia pelo olhar que por detrás do sorriso pairava alguma tristeza, mas sempre deixei e respeitei seus silêncios.

 

Hoje estive a rever muitos dos comentários que me deixou e um deles dizia:

 

Ah, Manu...

No final de tudo, mesmo quando os caminhos se soltam ou descruzam...restam sempre as memórias. Somos memórias, os nossos tijolos são memórias, tudo o que deixamos nos outros são memórias.
A felicidade, tal como tudo ... é efémera. O tempo certo, o presente, é o único de que dispomos..

O passado, já passou .... e o futuro... amanhã falamos sobre ele.

Beijos.
Rolando

 

Hoje Rolando, não posso falar do amanhã apenas me resta recordar, não com tristeza, mas com um brilho nos olhos, porque sei, que estejas tu onde estiveres és uma estrela brilhante que acompanha o meu caminho e o de todos a quem brindaste com a tua amizade.

 

 

A blogosfera ficou mais pobre

Nem sei como começar, simplesmente porque não consigo acreditar que ficámos privados da escrita, das fotos, da música do nosso amigo Rolando autor do blog Entremares. Resta uma obra que vou recordando ao relê-lo.

 

Há uns tempos dizia-me:-Manu o meu objectivo é editar um livro até ao final do ano e dizia aquilo com um brilho enorme nos olhos. Não consegui, mas todos os que admiravam a sua forma de escrever, não precisarão de livros, para relembrar e reler cada história, cada aventura, cada mensagem velada, cada desabafo....

 

Tantas histórias que tinham sempre um final feliz, ou um conteúdo pedagógico, ou mesmo uma reflexão!

Lê-lo é sempre uma viagem ao mundo do imaginário, que me envolve e me deixa pregada até às últimas linhas, esperando ansiosa o desfecho.

 

Homem polivalente que se desdobrava em múltiplas actividades, passando pelo ensino, informática, rádio, fotografia, etc, acrescendo a tudo uma enorme disponibilidade para os amigos.

 

Costumava dizer-lhe que ele era o padrinho do meu cantinho, porque a partir da altura em que me descobriu, imediatamente se abriram novas portas e foi sobretudo do Brasil que se fizeram notar as primeiras visitas.

 

Os seus comentários eram comovedores e ainda não o conhecia, já ele descobria quem era a verdadeira Manu, porque sabia ler nas entrelinhas e alcançava o que estava escondido atrás de cada palavra.

Relembro comovida um dos primeiros comentários que me deixou e sem me conhecer, fez o meu retrato fiel. Dizia ele:

 

"Quem é a Manu?
A Manu… vejamos… a Manu que escreve é uma pessoa espiritual, sem ser propriamente praticante de qualquer culto ou religião. Mas é espiritual, e pensa ou medita bastante sobre o assunto. E quando chega a uma pequena conclusão… lança um post, a pretexto de algo.
Querem uma prova? Já leram o "querida professora" ou o "Apenas sou" ou até o "Arrumando gavetas"? Ou o "inquérito", o primeiro post ?
Não leram? Ora essa… então façam favor de ler.
A Manu é muito selectiva nas pessoas com que se rodeia. Já foi menos, agora apertou bastante " a bitola". Mas descobriu ( coisas da vida ) que esta coisa do blog fez aparecer um universo paralelo, de pessoas paralelas, que mesmo de um modo virtual, conseguem ser estimulantes, interessantes… e que até partilham ideias em comum. Foi uma descoberta fascinantes ( isto sou eu a deduzir em teu nome, claro )

O post da transparência fez-me lembrar um pouco o grito do Ipiranga, quase que uma mensagem ao mundo virtual a dizer: Hey… tenham calma, que essa imagem de super-mulher, poderosa e eterno ombro para todos os males do mundo… essa imagem já a tenho lá naquele mundo real que vocês conhecem… não preciso da mesma imagem aqui… aqui eu sou só … a Manu, ponto final.

Pronto, terminei.
Esqueci-me de algo, desculpa.
Não te conheço… mas gosto bastante de ti. Como eu dizia quando era teenager " és uma pessoa e peras".

 

Continuei a minha busca pelos comentários que me deixou e encontrei um que se ajusta ao momento triste, que estou, ou melhor que estamos a viver a propósito do post "Antes que seja tarde"

Dizia ele:

Acredita... gostava de ter escrito muito do que escreveste neste post. Por ser verdade, por dizer - preto no branco - que o tempo urge, que não somos senhores de nada, muito menos do tempo.

E aí, lembrei-me de citar uma frase de um senhor que admiro imenso, e que creio que resume muito bem o que veio à alma, depois de ler o teu post.

" Quando o marido se despede da mulher e dos filhos pela manhã para ir trabalhar e só voltar à noite, deveria pensar que poderá ser a última vez que os está a ver. Ninguém é senhor do próprio destino"

O autor da frase é o Dalai-Lama."

 

Agora Rolando, deixa que me zangue um bocadinho contigo:

 

Nunca é tarde para te ler, mas é muito cedo para te recordar..não achas que partiste demasiado cedo?

Até sempre meu amigo, um dia quem sabe, voltaremos a rever-nos num local onde as estrelas brilharão e onde não haverá violência nem injustiça.

Quando as palavras deixam de se ouvir

Saudade

 

Saudade é solidão acompanhada

é quando o amor ainda não foi embora

mas o amado já.

 

Saudade é amar um passado que ainda não passou,

é recusar um presente que ainda nos machuca

é não ver um futuro que nos convida

 

Saudade é sentir que existe o que não existe mais

 

Saudade é o inferno dos que perderam

é a dor dos que ficaram para trás

é o gosto de morte dos que ainda continuam

 

Só uma pessoa no mundo gosta de sentir saudade

Aquela que nunca amou

 

E esse é o maior dos sofrimentos

não ter por quem sentir saudades

passar pela vida e não viver

 

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido

 

Pablo Neruda

Partidas e chegadas

Um dos sítios que me dá um prazer enorme estar é num aeroporto, talvez porque associe a ideia de fazer mais uma viagem, ou a chegada de alguém que não vejo há muito e de quem tenho saudades.

Partidas para descobrir, para viver, para olhar de outra forma, para conhecer outras gentes.

Chegadas feitas de abraços, de saudade, de sorrisos, de histórias, tantas histórias para contar.

Enquanto espero, o meu olhar perde-se em descobertas de realidades ou dispersa-se a fantasiar sobre o que desconhece.

Percorro as filas de gente alinhada, invento razões para partirem, desvendo o que dizem as expressões daqueles rostos...uns aliviados, outros tristes, outros ainda com vincos de preocupação que o olhar carregado denuncia. Há os se olham enternecidos, que se enlaçam e entrelaçam, há os que  alheios a tudo, absortos em dúvidas, em ausências, desfolham apáticos uma revista.

O que levarão naquelas malas? Malas lindas algumas, outras gastas de tanto palmilharem mundo fora, há a pasta daquele que vai e volta no mesmo dia, a mala do artista, a prancha do surfista, a guitarra de mais um que vai tentar a sua sorte.

Belas mulheres, aprumadas e esbeltas, homens de fatos bem vincados intelectuais penso eu...será que me engano? Serão burlões disfarçados de cavalheiros honrados.

-Senhores passageiros com destino a...

Ah, acordo... quem parte? A fila desfaz-se, foram...

Do outro lado gente que aguarda ansiosa. Caminham nervosos de um lado para o outro, roiem as unhas, ajeitam o cabelo, colocam-se em bicos de pés para tentarem descobrir se é naquela revoada de gente que chega quem esperam. Depois...ah depois, há a alegria que se estampa nos olhos, sorrisos rasgados, abraços e beijos demorados.

Hoje também estou nas chegadas, sou uma entre tantas, mas sou única para alguém que me abraça e me acolhe.

 

E neste constante vaivém reparo que a vida é o eterno ir e vir, a impermanência do estar, o movimento  de um mundo que não pára de me surpreender.

Partem alguns para sempre , mas deixam memórias, chegam outros para continuar a marcar instantes que ainda se hão-de eternizar e  há o momento de pausa em que alheia a tudo me encontro no nada para poder renascer todos os dias, para  que se esvazie o que deixou há muito de ter importância e possa dar lugar ao novo, ao calor, talvez a mais um Verão, um pôr do sol, uma brisa passageira... e esperar que na próxima hora, no novo ano, noutra estação haja sempre uma partida, uma chegada e entre uma e outra um momento para ficar. 

Escrava do Tempo

 

Naquele dia o mundo parou para ela, era como se o tempo que até ali tinha sido pródigo em amargura, desdita e sofrimento, tivesse feito um intervalo e os ponteiros do relógio tivessem parado num instante que ela desejou que terminasse depressa.
Olhou pelos minúsculos buracos rasgados no manto que a cobria e circundou com o olhar a praça onde estava exposta e onde muitos homens sonhavam comprá-la.
Recordou o tempo em que pôde brincar nos campos ensolarados das estepes chinesas. Lembrou o som do rio que deslizava tranquilo e onde tinha chapinado com alegres risadas que se misturavam com o chilrear de aves que sobrevoavam pachorrentas por entre a vegetação.
Mas agora o tempo era outro, não tinha escolhas, estava resignada, o seu coração calejado e dorido já não sabia o que era dor, estava imune a tudo, como se um escudo a protegesse e não deixasse que uma ou outra coisa a emocionasse.
Nos olhos nem uma lágrima.
Atrás dela sua mãe ouvia as ofertas que ia recusando uma a uma, sabia que estava a vender um tesouro, uma jóia que iria dar sorte ao homem que tivesse dinheiro suficiente para a comprar.
Falava-se da sua beleza, dos seus olhos acastanhados, da doçura da sua expressão, do poder que tinha para transformar tudo o que a rodeava.
Indiferente, apática, parada num tempo que passou, ela intimamente pedia para que aqueles instantes fossem irreais, pedia para que tudo terminasse depressa.
E terminou...ele acercou-se dela e fez a melhor oferta.
Continuou sem rumo, sem hora, servindo, obedecendo e cumprindo uma espécie de pena que o destino lhe tinha traçado num tempo distante de um dia qualquer.
Os anos passaram e o sonho que julgava ter perdido reapareceu no instante em levada pelo vento voou rumo á liberdade.
Hoje, só ela sabe que a escrava de um tempo se foi, para encontrar outro tempo que ela escolheu...o tempo da liberdade.

 

(Texto do desafio em cadeia, round VI)

 

A saudade, a cumplicidade, a sensibilidade e a simplicidade, são palavras que formaram um elo de amizade entre pessoas que um dia resolveram aderir ao desafio proposto pela Marta.

Desta vez O Sorriso de Geia   decidiu que eu ficasse escrava desta iniciativa e construiu mais um elo que me deixou presa a emoções inesperadas.

Foi o espanto, a surpresa pela decisão que tomou ao escolher "A escrava do tempo" como continuadora deste tempo de partilha.

Agora já liberta de amarras conto voar por aí para motivar e incentivar à partipação de todos os que fazem dos seus blogues estandartes de amizade , de sonho e imaginação.

Aquela Flor

De braços abertos aproxima-se, rodopia, detém-se...olha sobranceira, sedutora, provocante, sensual...

Lentamente abre-se num sorriso, suspende-o...deixa-o no ar...

Lentamente estende as mãos, acaricia o corpo, apalpa, afaga...

Devagar, bem devagar...abraça-se, abraça, roda sem parar, num vaivém voluptuoso e sem sentido...

Devagar , bem devagar, despe o sorriso, solta a lágrima o suspiro e a saudade.

Desnuda-se, mostra-se, provoca, insinua-se...

E devagar bem devagar, solta o medo, fica altiva e imparável...entrega-se, suspira , suplica e ...VIVE

 

22 de Agosto de 2008

Sentou-se em frente da estante...uma a uma foi abrindo gavetas e tirando papéis da prateleira.

Já passou um ano...chegou a altura de se desfazer de lembranças que preencheram a sua vida durante trinta e quatro anos.

Lentamente foi abrindo envelopes, desfolhando documentos, enquanto visualizava cada momento...tantos momentos!

Planificações, sumários, planos de actividades, actas, relatórios... foram sem cerimónia, directamente para o caixote do lixo.

Chegou a parte mais difícil, a que lhe tocava o coração. Sem pressa foi desdobrando   pequenos bilhetes, poemas, desenhos, histórias...

Lê comovida  frases que lhe foram dedicadas, escritas em papelinhos coloridos enfeitadas com florinhas. Olha para o desenho do menino que não tinha jeito para escrever, e que encontrou uma forma de demonstrar o quanto gostava dela..."Gosto muito de ti professora!...Francisco".

Os olhos percorreram a letra dos muitos poemas que lhe ofereceram, caligrafias perfeitas, adornadas com pássaros , flores e o sol...sempre o sol, e por baixo..."Para a minha professora, com um beijinho da Catarina"

 Bilhetinhos minúsculos, enfeitados com corações que foram interceptados no meio de uma aula ..."Amo-te Joana.", ou "...és muito bonita Sofia." e outro, "...gosto muito da tua camisola Gonçalo...", foram saindo do pequeno envelope acastanhado.

De vez em quando recostava-se na cadeira e de  olhos semicerrados, sem fixar ponto algum, ia lembrando aqueles rostos  vivos, meigos, tristes, marotos...as brigas, as brincadeiras no recreio, as queixas dos mais sensíveis, as vozes de comando dos mais arrojados, o choro dos que eram alvo de algum pontapé, de uma escorregadela, de uma bola que acertava em cheio na cabeça de algum, das calças rasgadas de quem se atreveu a subir às árvores, das canções de roda, dos teatrinhos improvisados, dos baloiços que não paravam, das canções de roda...

Retomava vagarosamente a difícil tarefa de se desfazer de um passado que não poderá apagar, porque será impossível para quem trabalhou com crianças ignorar o amor e o carinho que recebeu ao longo dos anos.

Os papéis,  irão para o lixo, mas as emoções essas ficarão bem guardadas no seu coração.

De repente uma última folha cai no chão....

 

 

Em cima da minha mesa...

Em cima da minha mesa

Da minha mesa de estudo

Mesa da minha tristeza

Onde noite e dia....

..............................................

Começava assim o poema de José Régio, que eu deveria   declamar numa festa onde todos os estabelecimentos de ensino da cidade participariam.

Lá estariam as pessoas mais importantes : o bispo, o governador civil, o presidente da câmara e tantos tantos mais que nem me importei em saber.

O que me preocupava era desempenhar bem o meu papel e não deixar mal visto o nosso colégio.

Cantar, dançar, pintar, representar era o que melhor me podiam mandar fazer; esquecessem a matemática, a geografia, as ciências...eu queria era arte, drama, encenação, palco...

Durante semanas a fio a paciente irmã Sameiro fez-me repetir centenas de vezes o bendito poema, que volvidos tantos anos não esqueci.

...e lá recomeçava pela centésima vez:

...Em cima da minha menza...

- Não é menza, é mesa- gritava ela

...rasgo folhas...

- a tua voz, a tua boca, a tua entoação tem que dar a ideia de rasgar...mais vida, sente o que estás a dizer.

...e me estudo, eu já me estudo...

- Vá agora a expressão é outra, é como se  estivesses a dar uma novidade.

 Não fosse o meu gosto pela representação, teria desistido. Tantas brincadeiras perdidas, enfiada numa sala com aquela mulher possante á minha frente a gritar  vezes sem conta..."mesa" e eu a dizer outras tantas "menza"

Chegou o grande dia.

 Blusa branca, saia preta, cabelo comprido caído bem penteado, soquete e sapato a condizer...tudo parecia perfeito.

 Lentamente  subi as escadas do palco. As pernas tremiam, mas o pior foi o lábio inferior que parecia uma castanhola que eu tentei  parar com uma forte mordidela ...quanto mais mordia mais ele batia; por momentos julguei que o trabalho de semanas tinha sido em vão. O  micro estava demasiado alto para os meus minúsculos doze anos; enquanto o colocavam á minha altura, deu tempo para continuar a controlar  o meu tremor labial.

 Soltei as palavras... como por milagre o lábio parou de tremer. Não vi ninguém, não olhei para nada, os olhos perderam-se no infinito  vazios de imagens e cheios de emoção. Ecoaram palmas, senti que todos se levantavam...aplaudiam de pé...tinha conseguido!

 A última frase do poema permanecerá em mim até ao dia em que eu sentir que a poderei oferecer á única pessoa que a poderá dizer com o mesmo amor com que eu a disse há muitos anos atrás.

"Em cima da minha mesa tenho o teu retrato ...Mãe!"

                                       

 

 

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