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Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Cantinho da Manu

"Quando duas pessoas partilham um pão, cada uma volta com um. Quando partilham ideias, voltam com duas." (Buda)

Meu "terrível" mês de Agosto

Há quem cante "Meu querido mês de Agosto", mas eu por mais que me esforce não consigo encantar-me com ele, ..."só pode estar maluca" pensarão... pelo menos os que vêem esta altura como a melhor do ano, em que têm férias e podem relaxar, outros se não fosse a obrigação de as terem agora, ou porque as escolas encerram, ou por ser a única  oportunidade que têm para estarem  com os filhos a tempo inteiro, ou porque as empresas encerram, ou ainda por que este é o mês em que se não houver nenhuma alteração atmosférica, é o único e provável em que há sol e praia, mas quero crer que se tivessem possibilidade de escolher também não iriam de férias neste mês.

 

Para mim este é um mês anormal e de situações anormais. São as intermináveis filas de trânsito até chegar á praia, o estacionamento, o amontoado de toalhas e de gente aos gritos na praia, são os preços dos alojamentos, das refeições e das viagens que disparam, é o mau atendimento, o tempo que se perde á espera que seja servido um simples café, é o lixo que fica espalhado pelos parques de merendas, mesmo com contentores ao lado, são as repartições que funcionam a meio gás, porque metade dos funcionários está de férias, é a falta de educação de alguns, que de camisa desapertada e barrigas avantajadas se encharcam em cerveja nas esplanadas, falando alto e bom som, dizendo asneirolas e mandando bocas brejeiras quando passam corpos esculturais, são os meninos com carros acelerativos de camisolinhas de alças se passeiam com o rádio em altos berros para chamarem a atenção sabe-se lá de quem...

É melhor parar por aqui, estou a ser exagerada, para muita gente e felizmente, este é um mês em que têm sorte de encontrar nalgum cantinho de Portugal ou lá fora, um pouco de paz e merecido descanso.

Vem aí  Setembro, os dias mais pequenos, a calma do entardecer e do silêncio junto ao mar, começa o meu descanso, eu sei que sou uma sortudo, mas tempos houve em que tive de trabalhar imenso nesta altura do ano, talvez venha daí também esta minha aversão pelo mês de Agosto, que este ano para além de todos os motivos que já falei e dos quais escapei, recolhendo-me sempre que possível no meu canto, não foi famoso em termos de saúde.

Para quem tem de começar a trabalhar, desejo muita força, boa disposição e que pelo menos não sofram da tão falada  depressão pós férias 

 

Agora reparo e já no final deste post,  juro que não tinha ido ver, no blog "A vida de saltos altos" o título é precisamente " Meu querido mês de Agosto", pura coincidência, leiam que é bem mais interessante do que aquilo que escrevi.

publicado às 20:51

Kridaaaaaaaa???!!!

Margarida esperou que a última nesga de sol desaparecesse no horizonte, um momento que lhe provocava alguma nostalgia, sempre conviveu mal com as despedidas e ausências apesar desta ser bem diferente. Sabia que bastava esperar por um novo amanhecer que ele voltava e pensou quão curiosa é a natureza, que assume compromissos de regresso em troca de nada ; as flores reaparecem todas as Primaveras, as estrelas fazem-se presentes todas as noites, ininterruptamente e em ciclos perfeitos  a terra oferece-nos, em sítios aparentemente sem vida e após um Inverno desconfortável, a alegria e o cheiro de campos inundados de cor.

Embrenhada que estava nos seus pensamentos ,  quase se estava a esquecer de comer, não fosse uma dor fininha no estômago.

Um pouco mais atrás, uma esplanada, música e o burburinho de pessoas , fê-la pensar que ali podia estar o sítio ideal para comer qualquer coisa e terminar o seu dia da melhor forma.

Quando se aproximou, viu com algum desânimo que a esplanada estava cheia, no entanto por detrás havia uma sala enorme completamente vazia. Na porta que dividia estes dois espaços, três funcionários conversavam animados, tudo estava controlado, os clientes todos servidos.

-Por favor, posso jantar? - perguntou.

-Só se esperar, estamos a servir este grupo, talvez daqui a três quartos de hora estejam despachados - disse um deles com ar de satisfação, daqueles que adoram dizer que não.

-Mas a sala está vazia, eu não me importo de comer ali dentro.

-Ai kridaaaaaaa, não pode não, não temos quem a sirva.

Margarida , não queria acreditar...Kridaaaaa?! Ele disse Kridaaa, mas que é isto?!!! Desde quando se tratam as pessoas assim? Detestava que certos termos que deveriam ser utilizados em contextos apropriados, fossem profanados e banalizados daquela forma.

Semicerrou os olhos, fitou-o com algum desdém e antes de virar costas respondeu.

-Espanta-me não haver ninguém para servir, afinal o que está o senhor aqui a fazer? (acentoou bem a palavra senhor).

Margarida nem chegou a ver a reacção dele, mas isso já não tinha importância. Será que tinha sido suficientemente clara para que ele entendesse a incorrecção do tratamento?

No dia a seguir voltou ao bar, felizmente o "Krido" não estava lá.

publicado às 21:16

Sozinha...ou nem por isso?

Um bar, um bom petisco, o mar , fim de tarde, pôr do sol, música e amigos.

- Vens connosco ver o pôr do sol? Petiscamos e disseram-nos que vem um senhor tocar saxofone enquanto o sol se põe.

-Sério ? Não sabia...adoro saxofone!

- Então vais?

- Sim, claro que vou, a que horas nos encontramos?

-Nós só estamos despachados ás sete, por volta das sete e meia conseguimos lá estar.

-Ok, eu vou um pouco mais cedo para reservar mesa.

- Até logo , então...

-Xau...beijo

 

-Nuno...por favor, trazes-me uma imperial enquanto espero pelos meus amigos? Somos três.

 

"...Estranho...eles não costumam atrasar-se...O telefone..hum...

- Não podemos ir, faleceu a mãe de uma amiga nossa num acidente...desculpa..ficas chateada?

-Não, claro que não, tenho pena, mas compreendo, nós teremos mais oportunidades.

 

Comi sozinha..ou não?! Tive o sol, a música e o mar à mesa comigo

 

 

 

 

publicado às 02:34

Janelas

Tenho quarenta janelas

nas paredes do meu quarto.

Sem vidros nem bimbinelas

posso ver através delas

o mundo em que me reparto.

Por uma entra a luz do Sol, por outra a luz do luar

por outra a luz das estrelas que andam no céu a rolar.

Por uma entra a Via Láctea como um vapor de algodão

por aquela a luz dos homens pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto pela menor a certeza

pela da frente a beleza que inunda de canto a canto.

Pela quadrada entra a esperança de quatro lados iguais

quatro arestas, quatro vértices, quatro pontos cardeais.

Pela redonda entra o sonho que as vigias são redondas

e o sonho afoga e embala á semelhança das ondas.

Por além entra a tristeza

por aquela entra a saudade

e o desejo e a humildade,

e o silêncio e a surpresa, e o amor dos homens, e o tédio

e o medo, e a melancolia

e essa fome sem remédio que se chama poesia,

e a inocência, e a bondade,

e a dor própria, e a dor alheia,

e a paixão que se incendeia,

e a viuvez, e a piedade,

e o grande pássaro branco,

e o grande pássaro negro,

que se olham obliquamente

arrepiados de medo.

Todos os risos e choros,

todas as fomes e sedes

tudo alonga a sua sombra

nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto

quem vos pudesse rasgar!

Com tanta janela aberta falta-me a luz e o ar.

 

(António Gedeão)

 

publicado às 17:40

Um mapa, um destino, uma vida...

 

O primeiro choro ouviu-se ás sete horas e trinta minutos de um dia quente de Agosto. Era uma menina, a primeira da família.

O Sol apareceu no horizonte e aqueceu os corações de todos os que a envolviam com carinho e atenções.

Á medida que ia crescendo foi conhecendo o seu pequeno mundo, longe de saber ainda, que para lá das colinas, do ribeiro, dos pequenos caminhos  da aldeia , haviam outros mundos e outras gentes

À noite olhava encantada para o céu e entretinha-se a descobrir estrelas novas.

A Lua passou a exercer nela um fascínio especial , desde que lhe contaram que se olhasse bem para ela podia ver um velho com um feixe de lenha ás costas; quando o descobriu ficava com imensa pena da pobre criatura que o destino quis que eternamente carregasse tamanho peso.

Mais tarde conheceu Vénus, a Ursa Maior , a Menor e muito cedo aprendeu a distinguir as estrelas dos cometas.

E todos os dias, o mesmo Sol que a tinha visto nascer, apagava o brilho das noites estreladas e aquecia as suas faces rosadas.

Se o céu era tão grande, porque seria tão pequenino o mundo onde tinha nascido? Pensou então que talvez pudesse arriscar e tentar ver para além do que a sua vista alcançava. 

Primeiro a medo, mas pouco a pouco mais arrojada , foi viajando   para sítios mais distantes e sempre com  vontade de ir cada vez mais longe. Ficava descansada , quando a noite chegava e via as mesmas estrelas que brilhavam na  sua aldeia  e que o sol todos os dias aparecia.

Tão distraída andava nas suas viagens que um dia se sentiu perdida. Ficou assustada, olhando para todos os lados, apenas tinha a companhia dos pequeninos pontos de luz que incansávelmente reluziam em noites claras.

Vendo-a tão perdida, alguém se ofereceu para ajudar. Estranhamente confiou e numa tarde ensolarada ficou a conhecer um mapa muito estranho e diferente daqueles que estava habituada a ver. Tantas linhas, sinais, desenhos minúsculos, símbolos que para ela não tinham qualquer sentido. Olhar para aquele estranho mapa não lhe aliviou a sensação de desorientação que estava a passar, mas uma conversa calma , num ambiente tranquilo, fez com que finalmente pudesse vislumbrar um pouco de luz.

Com voz meiga e tranquila a pessoa que agora lhe tinha oferecido o pequeno mapa disse:

- Minha filha, todos temos de fazer uma viagem, ela começa quando nascemos e termina quando morremos. Podemos viajar de duas maneiras, uma sem mapa, corremos o risco de nos perdermos  mais facilmente, mas chegamos, outra, com mapa, o que torna o percurso mais fácil. De uma coisa podes estar certa-continuou - com ele ou sem ele, tu tens sempre a posssibilidade de escolher o teu caminho.

Ela ouviu-a atentamente e pediu-lhe para a ensinar a interpretar todos os sinais que apareciam naquele pedaço de papel.

- Vou ensinar-te apenas o que acho importante para que não te percas, o resto terás de ser tu a descobrir.

Colocou de novo o mapa num envelope, entregou-lho e afastou-se.

Mais tarde no silêncio do seu quarto  abriu o envelope e reparou num minúsculo papel, que se apressou a ler.

"Quero que sejas ousada e ambiciosa, que deixes a terra onde nasceste  para que o teu campo de acção seja o universo".

Ficou sem saber o que pensar, aquilo que tinha acabado de ler ainda a deixava mais confusa.

Tudo parecia um enigma, daqueles que aparecem nos livros de aventuras.

Um pouco desolada, olhou de novo, agora com mais atenção e reparou que no meio de tantos sinais, apareciam também o Sol e a Lua, companheiros fiéis da seu caminho.

A partir desse momento soube, que por alguma razão, estrelas e planetas a acompanhavam desde o dia em que nasceu.

 

 

 

 

publicado às 00:22

Vagueando

 

Deixo que me leve o vento

ora forte, ora calmo.

Em dias de turbulência,

redemoinho num vaivém de atribulações que invento .

Descanso exausta

num lugar que imagino ser de sonho.

Ouço o sussurro de palavras que me chegam de longe.

Chega a noite... 

vislumbro a Lua que aparece e desaparece

num jogo de esconde esconde

com uma nuvem de matizes cinza e branco.

Entretenho-me a olhá-la,

descubro figuras que vai desenhando,

tento perceber o que esconde.

Penso que por detrás, bem escondido,

há um anjo, vigiando atento esta alma,

que vagueia em  fantasias e lembranças de outrora.

Deixo que  brilhe o sol,

promete aquecer o meu corpo dormente, gelado...

O mar traz-me em dias de maré alta

notícias de quem há muito partiu

e em tardes silenciosas leva para longe a saudade. 

Por aqui me arrasto ao sabor do vento e ao calor do sol. 

Deixo que todos os meus dias sejam diferentes

que  os meus devaneios me levem

para um mundo  que não este

para uma realidade que não é minha

para um destino que não foi traçado,

talvez por esquecimento...

ficou em rascunho o coitado,

ou mal feito... ou borrado...

à espera que um dia alguém,

pegasse neste bocado de gente

e rabiscasse num pouco de céu

o cenário desta vida

que nunca me pertenceu.

 

publicado às 20:58

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